Réu confesso, devo admitir

Sou um viciado declarado ( descarado!) por música. Assim, nunca houve qualquer dúvida da minha afeição pela expressão musical, mas custou entender que a música era parte inerente de mim. Não digo no âmbito da criação, embora a percussão tivesse me convidado a uma íntima relação desde novo; me refiro à sua contemplação. A uma certa contemplação crua, uma atenção egoísta que as vezes a música nos exige. Reclama. Se não for firme você cede, ela gosta, você cede, ela se acostuma, você acaba alimentando compromisso, pronto. Vicia. As vezes não existe outro meio que não satisfaça essa criança mimada que você mesmo criou. Lembro quando tudo foi mudando. Numa altura deixava de receber intacta a herança telúrica-pop-nordeste-bossa de meus pais e começava a me permitir ser atingido pelo convite de ser par na valsa da alma que a musica sem vergonha, indecente, faz. Ficava horas na frente do player trocando de cd. Horas parado, olhando para o marcador com o cd na mão. Apenas ouvindo. Eu ainda não sabia, mas estava conhecendo um outro corpo, o outro corpo e a mim mesmo. Típica coisa da adolescência. A descoberta do prazer era imensa. Puro gozo – gozo puro. Gonzagão, Caetano, Zé Ramalho, Elvis, Beto Guedes, Bethânia, Elba, Alpha Blondy, 14 Bis, Stieve Wonder, Gonzaguinha, Vinicius, BeeGees, Salsalitro, Geraldo, Cazuza, Mastruz com Leite, Toquinho, Michael Jackson, Dominguinhos, Aretha Franklin, Jamiroquai, Gil, Tchaikovsky, Gerônimo, Maxi Priest, Man at Work… A mistura doméstica foi sedimentando uma vontade de desejo de poesia em forma de música e de canção. Depois veio o jazz, depois veio o blues, depois veio Beatles, depois veio Buena Vista (pxi!) e terminou de arrebentar de vez. Uma vez comprei um trompete e coloquei na cabeça que queria aprender. Além de um fuên e outro, não fui pra lugar nenhum. Passado alguns meses, resolvi fazer dele um objeto mais útil. Vendi e comprei um box de Gal. Meu Deus, meu pai, meus todos orixás! Mil vezes Hotel das Estrelas, mil vezes sensação. “Rio e também posso chorar…” era uma sublimação. Só não superou o assombro unânime de todas as vezes de The Archaic Lonely Star Blues. Disse Nietzsche, “Só a música colocada ao lado do mundo pode nos dar uma idéia do que deve ser entendido por justificação do mundo como fenômeno estético.” e completa “A vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”. Além de Gal, Tim Maia foi outro responsável pela minha contaminação com mundo dos box‘s de álbuns. É que tem essa: eu gosto do cd; de ter aquilo que pega e tem encarte e tem história. Racional 1 e 2 eu conheci como embalo num ônibus interestadual, nos tempos da graduação do curso de Comunicação Social, a caminho para um encontro de estudantes em Tocantins, no Brasil. Não dormi nada. As melhores coisas realmente nós aprendemos fora da sala de aula. E vieram num só gole: Tim, Janis Joplin, Novos Baianos e Led Zeppelin. Depois, Jorge Ben e Simonal como digestivo. Pura riqueza acadêmica!

Acordo, uma música; caminho, uma música; trabalho, uma música, escrevo, uma música, durmo, uma música; insônia, muitas e muitas músicas. Há algumas semanas, ouvindo uma lista qualquer de latin jazz no Spotify me caiu a ficha. Peguei o celular e mandei uma mensagem para um amigo: “Maestro, entendi! Entendi o que Nietzsche quis dizer sobre Wagner! Eu sei essa elevação, eu sinto!” Não à toa o título da primeira versão de O Nascimento da Tragédiado era O Nascimento da tragédia no Espírito da Música [1], onde filósofo alemão tratava a música como um mecanismo de conhecimento humano, de liga entre corpo-alma-espírito, de transfiguração cultural.

A primeira vez que escutei Buena Vista Social Club foi quase muito mais que um pouco disso. Um trailer do documentário, a passar numa propaganda da sessão de pay-per-view da Sky, em 1998. Apenas alguns segundos de música. Alguns segundos de elevação, de uma hipnose da qual nunca mais me livrei. Para a filósofa espanhola Maria Zambrano, a música faísca “…o ímpeto da carência ascética da alma”; a vocação de unidade do conhecimento filosófico na poesia da multiplicidade das coisas. A musica eleva quando se deixa elevar ; produz “…um gênero especial de inquietação e plenitude perturbante”. Alguns acordes, violões, contra-baixo, palmas e ‘De Alto Cedro voy para Marcané; Llego a Cueto, voy para Mayarí’, nas vozes uníssonas de Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Elíades Ochôa, Pío Leyva e Manuel Licea, o Puntillita. Dormi neste sonho que se abriu a outros sonhos e que somaram a outros muitos tantos. Através do Buena Vista mergulhei num oceano feito de uma clave afro, de um virtuosismo jazzístico, de um acento protagonizado por um crooner[2] improvisador. Um lugar de referência de espírito[3] meu, uma ocasião interna que eu não conhecia e que me espantava em conhecê-la. Como quem sente a certeza do prazer no mergulho, voltei ao ar, respirei e desci fundo. Enveredei por uma pesquisa de tudo e de todos da velha guarda cubana e da salsa no mundo. Me vesti de arqueólogo e vasculhei todos os cantos, as lojas, os sites, os bancos de música, as histórias e as notícias. Senti as composições mais sublimes! Nos apaixonamos, casamos e hoje vivemos uma perfeita relação harmoniosa. O son cubano, o guagancó, o tumbau, a rumba cubana, o chachacá, a descarga, o bolero, la bomba, tudo isso que forma aquilo que chamam de salsa convive comigo. Não nos importunamos, sabemos os nossos limites. Quando é hora, quando já chega, quando é urgente e quando nunca. É quando a poesia vira matéria. E ainda somado a isso uma sensação de reencontro com o gesto fundamental da mistura melódico-percussiva que se pode facilmente perceber nos países colonizados pelos “descobridores do novo mundo”, resultado das glórias de um povo formado por uma mistura compulsória (e opressora) de etnias. Como a Bahia. Como a música da Bahia. Barroco como a Bahia. Orixá como na Bahia. Candomblé na letra como na Bahia. Fé no canto, na clave. Outro tempo. Muitos andamentos. Tudo, igualzinho.

No último mês tive mais uma dessas surpresas, dessas que se estabelecem como checkpoints da vida; um marco. Tão maior o meu fascínio pela musica é conhecer seus novos exemplares. Novos pra mim, quero dizer. O espanto é duplo: o primeiro, por ter ciência do que era antes desconhecido; o segundo, por ter certeza disso. E, como num desses dias, um grande amigo-irmão-colega, das fortunas que a arte me deu – Daniel Farias – sabedor do meu gosto pelo jazz e, mais especialmente, por Miles Davis, me apresenta uma das mais brilhantes manifestações poéticas que conheci nos últimos tempos: o álbum Miles Davis – Sketches of Spain. Existe um mediterrâneo em cada um; um lugar onde o sol chega diferente e deixa as coisas num entusiasmo atento, teso, vivo. Estou no solstício da música novamente.
¡ Solea ! [4]


[1] depois do rompimento com o compositor Richard Wagner a obra passa se chamar O Nascimento da Tragédia, ou Helenismo, ou Pessimismo .
[2]Epíteto dado a um cantxr de um certo estilo de canções populares, apelidado de pop tradicional, de baladas populares. É normalmente acompanhado por uma orquestra completa ou uma big band.
[3] Plano, noção de conduta voltado para a perfeição da consciência humana e a trascendência.

[4] Sub-classificacão rítimica do Flamenco e nome de uma das composições do album Sketches os Spain.

2 Comments

  1. Pó's avatar diz:

    Adorei o texto, Rafa! Dá pra sentir seu jeitinho, e o impacto bonito que a música tem. Além de aprender um pouco sobre algumas coisas.
    Quero ler mais você!

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