Seis Propostas para Dar Forma ao Futuro que Ainda Não Vemos

futuro é ideia // forma é gesto // o invisível já começa a existir

Depois de quase 2 anos, enfim, terminei de ler as Seis Propostas para o Próximo Milênio

E isto se deu por alguns motivos. Primeiro porque, de lá pra cá, muita coisa aconteceu e, na concorrência pela minha atenção, as necessidades mais urgentes ganharam. Segundo, porque já adianto que Calvino nos tranquiliza, mesmo no início da obra, ao nos lembrar que não devemos cair na tentação da produtividade hiper acelerada, que nos obriga a “vencer” demandas, ainda que a literatura (e, talvez, a vida) reivindique calma e reflexão. E terceiro, foi por uma certa dificuldade focar a minha atenção e daí que a dopamina me fez despejar a minha concentração em algumas “junk thoughts“.

Mas antes me deixe ressaltar que sempre tive uma desconfiança instintiva diante de qualquer ideia que remeta a métodos, fórmulas ou receitas sobre como devemos viver, ser ou agir. “Como fazer”, “como ganhar”, “como melhorar”, “como viver”, todas essas promessas prontas, que parecem simplificar a complexidade da vida, acabam despertando em mim uma resistência silenciosa. Talvez seja um reflexo natural de quem, mesmo sendo virginiano (e, portanto, supostamente inclinado à ordem e à precisão), se recusa a acreditar que a vida possa ser reduzida a manuais. Gosto de pensar que a riqueza do existir está justamente no imprevisto, nas nuances e nas sutilezas que nenhuma fórmula poderia captar. E foi com essa leve resistência que, ainda assim, me aproximei das propostas de Calvino.

Então, Seis Propostas para o Próximo Milênio é o resultado das transcrições de cinco conferências que Ítalo Calvino preparou em 1985 para a renomada série de palestras Charles Eliot Norton, da Universidade de Harvard. A obra, porém, ficou inacabada com a morte do autor antes de concluir a sexta e última proposta. Nela, Calvino reflete sobre o futuro da literatura e da cultura no século XXI, propondo seis valores essenciais para a escrita e o pensamento. Esses ensaios, ao mesmo tempo profundos e acessíveis, revelam um olhar crítico e poético sobre temas como leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência, princípios que ele acreditava serem fundamentais para enfrentar os desafios e a complexidade do mundo contemporâneo. A última proposta, a da consistência, nunca foi escrita, o que confere à obra um caráter póstumo e inacabado, mas ainda assim poderoso em sua visão do que a literatura (e a vida) podem ser.

Ao longo desse período, percebi que Seis Propostas vai muito além da literatura. O que Calvino apresenta são, na verdade, princípios que podem ser aplicados não apenas à escrita, mas também ao modo como pensamos e vivemos. O autor nos propõe valores que transcendem o ato de contar histórias: são ferramentas para enfrentar um mundo complexo, mutável e, muitas vezes, caótico. As metáforas de leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência são, ao mesmo tempo, literárias e existenciais. Elas oferecem uma nova forma de pensar a relação entre nós e a nossa própria narrativa, seja ela no trabalho, nas relações pessoais ou nas escolhas do dia a dia.

Para Calvino, a leveza é a capacidade de lidar com o peso do mundo sem nos deixarmos esmagar. Ele vê a leveza não como fuga, mas como uma maneira de olhar o que nos oprime de uma forma diferente, mais sutil. Na vida, essa leveza pode ser a capacidade de transformar problemas pesados em algo mais fácil de carregar, sem perder a profundidade ou o significado.

“A cada vez que o peso do mundo parece esmagar-nos, tenho de pensar na leveza que pode tornar insustentável o nosso jugo.” (Leveza)

Em outras palavras, a leveza não elimina o peso das responsabilidades, mas nos ajuda a mudar a forma como as encaramos. Nos dias corridos, talvez seja exatamente esse o segredo para não sermos consumidos pela ansiedade ou pelo estresse.

A rapidez de que Calvino fala não é sinônimo de pressa. Não se trata de uma corrida contra o tempo, mas de uma agilidade mental e prática. Rapidez, no contexto da vida, significa ter a capacidade de focar no essencial, de agir com precisão e de se adaptar às mudanças que o mundo impõe. Nossos dias estão cada vez mais sobrecarregados de informações e decisões, e a rapidez é o que nos permite navegar esse fluxo sem nos perdermos.

“Se soubermos eliminar a palavra inútil, o fraseado redundante, aquilo que retarda o nosso raciocínio, poderemos dominar a velocidade que a nossa época exige.” (Rapidez)

Rapidez, então, é sobre filtrar o ruído, escolher o que importa e responder de forma eficiente, sem gastar energia à toa.

A exatidão de Calvino reflete o desejo de ser claro, de comunicar com precisão e de buscar a verdade nas palavras e nas ações. Exatidão na vida é sobre saber exatamente o que queremos e expressar isso de forma transparente, sem ambiguidades. Numa era de excessos e distrações, a exatidão é o antídoto para a dispersão, permitindo que nossas intenções e gestos sejam alinhados e tenham impacto.

“Para o próximo milênio, gostaria que a literatura aspirasse a uma linguagem exata como a de um dicionário de geometria.” (Exatidão)

É uma lembrança para sermos precisos em nossa fala e, por consequência, mais conscientes em nossas escolhas. Em vez de exageros ou confusão, busquemos a clareza, tanto no que dizemos quanto no que fazemos.

A visibilidade é o convite de Calvino para ver além do óbvio, para usar a imaginação como uma ferramenta poderosa de criação de realidades. No dia a dia, ela se traduz na habilidade de visualizar caminhos futuros, de imaginar alternativas e soluções, especialmente em momentos de dificuldade. É esse exercício de imaginação que nos permite projetar o que ainda não existe e dar forma ao invisível.

“O poder de evocar imagens com a palavra escrita será ainda mais precioso no futuro, quando a comunicação tende a ser dominada por imagens pré-fabricadas.” (Visibilidade)

No meio de uma cultura visual e imediatista, é essencial resgatar a imaginação, tanto como uma força criativa quanto como uma forma de enxergar novos horizontes.

A multiplicidade de Calvino reflete a complexidade do mundo contemporâneo. Em vez de simplificar ou reduzir as coisas a uma única visão, ele sugere que devemos abraçar a pluralidade de perspectivas e verdades. Isso nos ensina a valorizar o diálogo, a diferença e a riqueza da diversidade, seja em nossas relações, em nossas escolhas profissionais ou em nossa maneira de entender o mundo.

“É preciso multiplicar as histórias, ampliar os pontos de vista e criar redes de significados que se cruzem e se reforcem mutuamente.” (Multiplicidade)

Na prática, significa que não precisamos nos prender a uma única forma de pensar ou viver. Há sempre múltiplas abordagens e caminhos, e a verdadeira sabedoria está em acolher essa pluralidade.

A consistência, embora não desenvolvida por Calvino em vida, é intuída como a capacidade de manter uma coerência interna, tanto na escrita quanto na vida. Isso não quer dizer rigidez, mas sim uma integridade entre o que acreditamos e o que fazemos. Em tempos de tantas mudanças e desafios, ser consistente é manter uma linha de princípios, mesmo quando tudo ao nosso redor parece fluir de forma caótica.

“A literatura deve ter consistência, como uma constelação cujas estrelas estão distantes, mas interligadas.” (Consistência)

Assim, a consistência é como uma bússola que nos mantém fiéis aos nossos valores, enquanto navegamos pelas transformações da vida.

Ao terminar Seis Propostas para o Próximo Milênio, fica evidente que o que Calvino nos oferece vai além de um guia para a literatura: é um conjunto de valores para a vida. Seis valores que acredita serem essenciais para a literatura e, por extensão, para o futuro da humanidade. Em tempos de aceleração constante, ele nos lembra de buscar leveza, clareza, imaginação e pluralidade, sem perder a coerência interna. Cada proposta é uma reflexão sobre a importância de cultivar certos princípios em um mundo cada vez mais rápido, fragmentado e complexo. A obra nos convida a reconsiderar como vemos o tempo, a linguagem, e a própria existência, propondo que leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência podem ser a chave não apenas para a criação literária, mas para um modo mais atento e significativo de estar no mundo.

De tudo, posso dizer que este “guia” tranquiliza, mas também inspira. Ou talvez seja um convite a olhar o presente e o futuro com olhos novos. E, por que não, mais leves.