Antes do apogeu: entre o real e o presente

(Lisboa, primavera)

Foto irreal gerada por IA

Foi num desses dias que parecem não pertencer mais à primavera, mas que ainda não se reconhecem como verão. Um entretempo. Uma vibração que começa a se insinuar na pele e nos passos das pessoas na rua. Lisboa começa a se oferecer de outro modo: mais aberta, mais morna, como se já tivesse esquecido os meses de frio. O festival acontecia ali, no meio desse deslocamento de estação, como se também ele anunciasse o que ainda não chegou. E se chamava Coala, nome de bicho terno, sim, mas que aqui abrigava outra coisa: uma festa de gente que canta, dança e carrega no corpo a história inteira da sua identidade e do seu povo.

Foi nesse espaço que a presença se impôs como experiência e não como conceito. E eu insisto: presença, e não apenas o “ao vivo”. Porque o ao vivo já não basta. O ao vivo pode ser um evento transmitido em tempo real, pode ser um story, pode ser o direto de um ecrã. Mas a presença — essa coisa que escapa à mediação, ainda exige mais: exige o corpo ali. Exige tempo espesso. Exige atenção. Exige, sobretudo, risco.

E então surge a voz, o corpo e a luz. Ney Matogrosso, no auge do seus 82, no palco, com um figurino que lhe cobria todo o corpo de cristais e pedras que reluziam, e não na tela era isso: um choque de presença. Um estremecimento. Um gesto de interrupção na lógica contínua da imagem. Não se tratava de assistir a Ney. Tratava-se de estar com ele, num mesmo tempo, num mesmo espaço. Sentir que aquilo não se repetiria, que não havia replay, que cada gesto seu, o timbre, a dança, o silêncio entre uma música e outra, estava acontecendo agora, e apenas agora. Não que eu sempre tivesse sido um fã inveterado pelo Ney, embora já tive a glória da oportunidade de assistir outros artistas mais admirados por mim , dos tropicalistas à velha guarda do samba e da bossa. Mas a comoção pela presença rara daquele grande artista me fez sentir e observar aquele momento com um sabor especial. 

Philip Auslander já nos alertava, ainda em 1999, que a distinção entre o “ao vivo” e o “mediatizado” é, no fundo, uma construção cultural. Em Liveness, ele mostra como mesmo os eventos presenciais são atravessados por lógicas da reprodução: há um imaginário midiático que estrutura o que esperamos ver, como esperamos reagir, como devemos nos comover. É verdade. Mas há algo mais. Algo que não se reduz à oposição técnica entre o que é captado e o que é experienciado. Algo que não pode ser empacotado. Aquilo que se esgota no instante, mas que deixa em nós um rastro inapagável.

Essa coisa, difícil de nomear, talvez se aproxime do que Agamben chamou de kairos: o tempo oportuno, o instante carregado de potência. O tempo que não é cronológico, mas existencial. Viver um tempo fora do tempo. Um tempo contra a aceleração. Contra o consumo. Um tempo espesso como um corpo, como uma nota que se sustenta por mais do que devia. O tempo da suspensão.

E havia também os outros. Os que estavam ao meu redor. Não como cenário, mas como extensão do próprio acontecimento. Vozes uníssonas, corpos bailando sem coreografia, mãos trêmulas segurando celulares que às vezes filmavam, mas logo desistiam. Porque filmar já não era suficiente. Porque o real, ali, se impunha como uma espécie de assombro calmo. Como se, de repente, todos estivéssemos reaprendendo a estar. Reaprendendo a ver — com os olhos todos, não só com a retina.

Walter Benjamin, quando pensa na aura da obra de arte, diz que ela se ancora justamente nesse aqui e agora, nesse encontro irrepetível entre espectador e objeto. Com a técnica, essa aura tenderia a desaparecer. Mas talvez ela não tenha sumido: talvez só tenha se escondido. A aura, hoje, precisa ser buscada com mais esforço. Como nos momentos em que Ney estendia os braços e o público respondendo não com gritos, mas com um silêncio mineral antes da ovação, não era sobre ele. Era sobre nós. Sobre o fato de estarmos ali. Sobre a nossa rara disposição para o agora.

Num mundo orientado pela velocidade, pela repetição e pelo arquivo, a presença é resistência. Assistir é um ato político. Estar é quase uma revolução.

Mas o que é estar, afinal, num tempo que exige prova constante da existência? O que é viver, se viver não basta, se é preciso registrar, publicar, partilhar, legendar? O que é a experiência, se ela precisa ser moldada à gramática da visibilidade para ser validada como real?

Vivemos o tempo do pós-digital, como definem alguns pensadores: um tempo em que o digital não é mais novidade nem exceção, mas a regra silenciosa que molda nossa percepção do mundo. Tudo é tela. Tudo é dado. Tudo é potencialmente conteúdo. Não é só que “se não postou, não aconteceu”, é que, muitas vezes, só se vive para poder postar depois. A experiência é convertida em pré-experiência: é vivida já como representação. Isso não é culpa individual. É uma lógica. Um sistema de atenção. Um metabolismo da imagem.

E é por isso que momentos como aquele, uma noite qualquer, no meio de Lisboa, no início ainda vacilante de um verão, são mais do que bonitos. São raros. São contrafluxo.  São brechas num presente programado. São os poucos instantes em que o tempo não se comprime em cliques, e onde o real ainda pode ser mais do que um arquivo: pode ser respiração, pode ser encontro, pode ser susto, pode ser presença.

E eu diria mais: são resistência.

Resistência contra a ordem da produtividade, da monetização da atenção, da aceleração contínua. Porque estar parado ali, apenas estar, sem pressa de sair, sem ansiedade de registrar, sem expectativa de “aproveitar melhor” o tempo; era, naquele momento, um gesto radical. Um ato de desvio.

Estamos numa era marcada não pela escassez de tempo, mas pela sua dispersão. O tempo já não se organiza em narrativas, ele se esfarela em episódios, em interrupções, em cortes e notificações. Vivemos em uma “crise temporal” onde tudo acontece ao mesmo tempo e nada realmente acontece. Porque o tempo, quando não é vivido, se configura apenas como passagem.

Por isso, parar, como se para respirar de dentro da própria experiência; é resistência. Resistência contra a lógica da performance contínua, contra a hiperconectividade que fragmenta, contra a obrigação de estar sempre atento e disponível. Parar ali, de pé, entre outros corpos, sem tarefa, sem meta, apenas entregue ao som de “Jurei mentiras e sigo sozinho..”, à dança de Ney, ao brilho de Ney, à alguém ao lado, ao suor que escorria na pele — era um gesto mínimo, mas profundo. Um gesto que dizia: agora não. Agora é só agora.

Na lógica da economia da atenção, toda experiência precisa render algo: um clique, um dado, um resultado. A contemplação, esse tempo silencioso, sem retorno imediato, é considerada inútil. Mas é justamente nesse espaço do inútil, do improdutivo, que o real se manifesta com mais força. A experiência não precisa servir para nada. Ela só precisa ser.

É por isso que aqueles instantes, naquele festival, naquela Lisboa expandida pela estação e pelo afeto, não foram apenas bonitos ou comoventes. Foram acontecimentos de mundo. Frestas num cotidiano excessivamente legível. Pequenas anomalias onde a vida reaparece, não como conteúdo, mas como presença. Como afirmação de que o real ainda pode ser vivido sem ser capturado. Sem ser traduzido. Sem ser vendido.

E talvez a tarefa seja essa: restituir espessura ao tempo. Devolver ao agora a densidade que lhe foi roubada. Reconhecer que estar num instante, inteiro, sem desejo de ir embora, é o contrário da pressa e o oposto da distração. É um ato de escolha. E de coragem.

Porque enquanto tudo nos empurra para o depois, a presença nos devolve ao agora. E isso, hoje, é um gesto profundamente político. Se o tempo verdadeiro é aquele que suspende a norma, então talvez a única forma de resistir ao tempo acelerado e opaco do agora seja essa: encontrar o gesto que não se deixa capturar. A palavra que escapa à legenda. O olhar que não busca uma boa imagem, mas apenas vê. A vida, nesse instante, não era conteúdo.
Era acontecimento.

Seis Propostas para Dar Forma ao Futuro que Ainda Não Vemos

futuro é ideia // forma é gesto // o invisível já começa a existir

Depois de quase 2 anos, enfim, terminei de ler as Seis Propostas para o Próximo Milênio

E isto se deu por alguns motivos. Primeiro porque, de lá pra cá, muita coisa aconteceu e, na concorrência pela minha atenção, as necessidades mais urgentes ganharam. Segundo, porque já adianto que Calvino nos tranquiliza, mesmo no início da obra, ao nos lembrar que não devemos cair na tentação da produtividade hiper acelerada, que nos obriga a “vencer” demandas, ainda que a literatura (e, talvez, a vida) reivindique calma e reflexão. E terceiro, foi por uma certa dificuldade focar a minha atenção e daí que a dopamina me fez despejar a minha concentração em algumas “junk thoughts“.

Mas antes me deixe ressaltar que sempre tive uma desconfiança instintiva diante de qualquer ideia que remeta a métodos, fórmulas ou receitas sobre como devemos viver, ser ou agir. “Como fazer”, “como ganhar”, “como melhorar”, “como viver”, todas essas promessas prontas, que parecem simplificar a complexidade da vida, acabam despertando em mim uma resistência silenciosa. Talvez seja um reflexo natural de quem, mesmo sendo virginiano (e, portanto, supostamente inclinado à ordem e à precisão), se recusa a acreditar que a vida possa ser reduzida a manuais. Gosto de pensar que a riqueza do existir está justamente no imprevisto, nas nuances e nas sutilezas que nenhuma fórmula poderia captar. E foi com essa leve resistência que, ainda assim, me aproximei das propostas de Calvino.

Então, Seis Propostas para o Próximo Milênio é o resultado das transcrições de cinco conferências que Ítalo Calvino preparou em 1985 para a renomada série de palestras Charles Eliot Norton, da Universidade de Harvard. A obra, porém, ficou inacabada com a morte do autor antes de concluir a sexta e última proposta. Nela, Calvino reflete sobre o futuro da literatura e da cultura no século XXI, propondo seis valores essenciais para a escrita e o pensamento. Esses ensaios, ao mesmo tempo profundos e acessíveis, revelam um olhar crítico e poético sobre temas como leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência, princípios que ele acreditava serem fundamentais para enfrentar os desafios e a complexidade do mundo contemporâneo. A última proposta, a da consistência, nunca foi escrita, o que confere à obra um caráter póstumo e inacabado, mas ainda assim poderoso em sua visão do que a literatura (e a vida) podem ser.

Ao longo desse período, percebi que Seis Propostas vai muito além da literatura. O que Calvino apresenta são, na verdade, princípios que podem ser aplicados não apenas à escrita, mas também ao modo como pensamos e vivemos. O autor nos propõe valores que transcendem o ato de contar histórias: são ferramentas para enfrentar um mundo complexo, mutável e, muitas vezes, caótico. As metáforas de leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência são, ao mesmo tempo, literárias e existenciais. Elas oferecem uma nova forma de pensar a relação entre nós e a nossa própria narrativa, seja ela no trabalho, nas relações pessoais ou nas escolhas do dia a dia.

Para Calvino, a leveza é a capacidade de lidar com o peso do mundo sem nos deixarmos esmagar. Ele vê a leveza não como fuga, mas como uma maneira de olhar o que nos oprime de uma forma diferente, mais sutil. Na vida, essa leveza pode ser a capacidade de transformar problemas pesados em algo mais fácil de carregar, sem perder a profundidade ou o significado.

“A cada vez que o peso do mundo parece esmagar-nos, tenho de pensar na leveza que pode tornar insustentável o nosso jugo.” (Leveza)

Em outras palavras, a leveza não elimina o peso das responsabilidades, mas nos ajuda a mudar a forma como as encaramos. Nos dias corridos, talvez seja exatamente esse o segredo para não sermos consumidos pela ansiedade ou pelo estresse.

A rapidez de que Calvino fala não é sinônimo de pressa. Não se trata de uma corrida contra o tempo, mas de uma agilidade mental e prática. Rapidez, no contexto da vida, significa ter a capacidade de focar no essencial, de agir com precisão e de se adaptar às mudanças que o mundo impõe. Nossos dias estão cada vez mais sobrecarregados de informações e decisões, e a rapidez é o que nos permite navegar esse fluxo sem nos perdermos.

“Se soubermos eliminar a palavra inútil, o fraseado redundante, aquilo que retarda o nosso raciocínio, poderemos dominar a velocidade que a nossa época exige.” (Rapidez)

Rapidez, então, é sobre filtrar o ruído, escolher o que importa e responder de forma eficiente, sem gastar energia à toa.

A exatidão de Calvino reflete o desejo de ser claro, de comunicar com precisão e de buscar a verdade nas palavras e nas ações. Exatidão na vida é sobre saber exatamente o que queremos e expressar isso de forma transparente, sem ambiguidades. Numa era de excessos e distrações, a exatidão é o antídoto para a dispersão, permitindo que nossas intenções e gestos sejam alinhados e tenham impacto.

“Para o próximo milênio, gostaria que a literatura aspirasse a uma linguagem exata como a de um dicionário de geometria.” (Exatidão)

É uma lembrança para sermos precisos em nossa fala e, por consequência, mais conscientes em nossas escolhas. Em vez de exageros ou confusão, busquemos a clareza, tanto no que dizemos quanto no que fazemos.

A visibilidade é o convite de Calvino para ver além do óbvio, para usar a imaginação como uma ferramenta poderosa de criação de realidades. No dia a dia, ela se traduz na habilidade de visualizar caminhos futuros, de imaginar alternativas e soluções, especialmente em momentos de dificuldade. É esse exercício de imaginação que nos permite projetar o que ainda não existe e dar forma ao invisível.

“O poder de evocar imagens com a palavra escrita será ainda mais precioso no futuro, quando a comunicação tende a ser dominada por imagens pré-fabricadas.” (Visibilidade)

No meio de uma cultura visual e imediatista, é essencial resgatar a imaginação, tanto como uma força criativa quanto como uma forma de enxergar novos horizontes.

A multiplicidade de Calvino reflete a complexidade do mundo contemporâneo. Em vez de simplificar ou reduzir as coisas a uma única visão, ele sugere que devemos abraçar a pluralidade de perspectivas e verdades. Isso nos ensina a valorizar o diálogo, a diferença e a riqueza da diversidade, seja em nossas relações, em nossas escolhas profissionais ou em nossa maneira de entender o mundo.

“É preciso multiplicar as histórias, ampliar os pontos de vista e criar redes de significados que se cruzem e se reforcem mutuamente.” (Multiplicidade)

Na prática, significa que não precisamos nos prender a uma única forma de pensar ou viver. Há sempre múltiplas abordagens e caminhos, e a verdadeira sabedoria está em acolher essa pluralidade.

A consistência, embora não desenvolvida por Calvino em vida, é intuída como a capacidade de manter uma coerência interna, tanto na escrita quanto na vida. Isso não quer dizer rigidez, mas sim uma integridade entre o que acreditamos e o que fazemos. Em tempos de tantas mudanças e desafios, ser consistente é manter uma linha de princípios, mesmo quando tudo ao nosso redor parece fluir de forma caótica.

“A literatura deve ter consistência, como uma constelação cujas estrelas estão distantes, mas interligadas.” (Consistência)

Assim, a consistência é como uma bússola que nos mantém fiéis aos nossos valores, enquanto navegamos pelas transformações da vida.

Ao terminar Seis Propostas para o Próximo Milênio, fica evidente que o que Calvino nos oferece vai além de um guia para a literatura: é um conjunto de valores para a vida. Seis valores que acredita serem essenciais para a literatura e, por extensão, para o futuro da humanidade. Em tempos de aceleração constante, ele nos lembra de buscar leveza, clareza, imaginação e pluralidade, sem perder a coerência interna. Cada proposta é uma reflexão sobre a importância de cultivar certos princípios em um mundo cada vez mais rápido, fragmentado e complexo. A obra nos convida a reconsiderar como vemos o tempo, a linguagem, e a própria existência, propondo que leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência podem ser a chave não apenas para a criação literária, mas para um modo mais atento e significativo de estar no mundo.

De tudo, posso dizer que este “guia” tranquiliza, mas também inspira. Ou talvez seja um convite a olhar o presente e o futuro com olhos novos. E, por que não, mais leves.

Hic Et Nunc

Como se não bastassem os livros que despertam o meu impulso incontrolável de tê-los, e que se unem a outros na lista dos que ainda não li, vou baixando um e-book aqui e outro ali, quando os assuntos tocam algum lugar de algum pensamento ou sentimento que esteja de mãos dadas comigo no momento.

Outro dia, lendo História e Utopia, do filósofo romeno Emil Cioran, fiquei espantado com a atualidade das suas reflexões, sobretudo do que diz respeito aos rumos da sociedade. 

A partir disto me pus a ponderar sobre inquietações que há algum tempo vêm remoendo a minha alma de ator, que reflete o tempo, e de artista, que concebe e fabrica outros novos.

Pois bem, muitos povos antigos, nas suas mitologias, imaginam o mundo inicial quase perfeito, em que os primeiros seres humanos viviam na mais perfeita felicidade. Gregos, egípcios, hindus, maias, astecas, celtas, mulçumanos, judeus e cristãos compartilham essa mesma ideia de plenitude originária que a humanidade acabou perdendo.

Desde a idade do ouro, passando pela idade da prata, do bronze, até chegar a idade do ferro, os autores antigos sempre relacionaram o caminho do desenvolvimento à perda da abundância eterna, atravessando pela chegadas das doenças e, enfim, ao advento do trabalho e à tragédia da escravidão. O avançar do tempo que nos abandonou a felicidade e nos entregou à imperfeição.

Nestes, o caminho que a humanidade percorre, ora de um jeito, ora de outro, duas dinâmicas surgem: uma, o mar seguro do pensamento conservador e outro, o agitado do pensamento revolucionário. O primeiro, para o qual o passado sempre será melhor que presente; e o segundo, para o qual o hoje nunca será melhor que o amanhã. 

Para Cioran, a segunda, embora seja mais poliana e talvez platónica, sem dúvidas é mais generosa. Se obter o que se deseja é, no fundo, a Felicidade, saber que ela está na frente, na luz do fim do túnel, é melhor do que viver lastimando o sentimento de que cheguei tarde demais para o banquete.

Entre um caminho e outro, vou me equilibrando entre o valor da tradição, em seu grau mais telúrico, e a necessidade do progresso. A urgência do progresso. Consciente, sustentável e o mais social possível. Fugindo de ilusões – tentando – , apesar das catástrofes atuais e de outras que sei que ainda estão por vir, me esforço para saborear o meu presente. Sobretudo o meu presente enquanto sei que ele existe. Tento fotografar na minha memória momentos especiais e experiências vividas para que as sensações passadas sejam de alguma forma ingredientes de um novo banquete. Baiano como sou, gosto de viver a mística das religiões que enaltecem a fé através da crença na possibilidade. Não à toa foi no Brasil que aportou o Rafael de Thomas More e fez o autor cunhar a Utopia para sempre na gramática da espécie humana.

Enquanto isso eu me contento com coisas simples: a bênção dos meus mais velhos, o olhar congelante da minha filha, o coração da minha eterna namorada, a mão forte dos amigos especiais, uma cerveja gelada e Gal Costa cantando Baby baixinho na caixa de som…

Outro dia, outras sensações correm e chegam pra invadir o meu corpo. Eu me entrego, inteiro, vivendo aqui e agora. 

* Imagem: iconografia de Quetzalcoatl – divindade da mitologia azteca representada pela serpente emplumada que simboliza a dualidade do pensamento e do conhecimento humano.