A Política em Guerra: como a retórica bélica virou justificativa para tudo

Nos últimos tempos virou moda declarar guerra. Não a guerra real, com exército, estratégia e campo de batalha, mas uma guerra conveniente, portátil, daquelas que cabem em qualquer discurso político. Uma guerra que você aciona quando quer justificar o injustificável, exagerar o moderado, inflamar o trivial e transformar qualquer contradição em ato de coragem patriótica.

Basta anunciar que estamos em guerra e, de repente, vale tudo. Vale mudar de opinião da noite para o dia, como quem troca de roupa no escuro. Vale se contradizer sem piscar, dizendo hoje o oposto do que foi dito ontem e prometendo amanhã o contrário do que foi prometido hoje. Vale acusar aliados antigos de traição súbita, como se lealdade tivesse prazo de validade. Vale atacar instituições inteiras sob o pretexto de que elas agora fazem parte do plano do inimigo. Vale reinventar fatos, reescrever acontecimentos e rebatizar versões, porque em tempos de guerra a narrativa importa mais do que a realidade. Vale transformar divergências em ameaças existenciais, tratados civis em capitulações vergonhosas, críticas legítimas em golpes imaginários. Vale transformar qualquer problema administrativo em conspiração e qualquer desacordo em tentativa de destruição da pátria. Vale fabricar um inimigo novo quando o antigo perde o efeito, seja um adversário político, a imprensa, o Supremo, o imigrante, a universidade, o vizinho barulhento ou qualquer entidade abstrata que renda um pouco de ódio e engajamento.

E o mais curioso é que essa guerra nem precisa de bombas. Ela vive de retórica bélica, de uma pitada de medo e de uma boa dose de urgência moral. É o suficiente para transformar a política em um videogame de sobrevivência. E se alguém pergunta se isso faz sentido, a resposta costuma ser simples. Não interessa. Estamos em guerra. É a carta universal. Serve para tudo e anula todo o resto.

Só que quando tudo é guerra, nada é política. Nada é conversa. Nada é negociação. Nada é comum. A democracia começa a tropeçar num cenário em que cada gesto é interpretado como ataque ou defesa. E aquilo que deveria ser a praça, espaço de encontro e convivência, acaba se transformando em uma trincheira disfarçada.

Às vezes me vejo tomado por uma sensação difícil de nomear, algo entre o espanto e o receio, quando observo o modo como certos movimentos políticos recentes parecem ganhar intensidade sem que percebamos claramente quando começaram ou para onde conduzem. O que me intriga é justamente essa zona nebulosa em que os processos se aceleram e mudam de grau, quase sempre de maneira silenciosa, até o ponto em que já não conseguimos identificar as fronteiras que antes nos serviam de orientação. Há momentos em que tenho a impressão de que atravessamos limites sem notar e, quando finalmente olhamos ao redor, a paisagem já não é a mesma. Essa experiência de estranhamento me leva a pensar na maneira como a política adota a lógica da guerra, porque muitas vezes esse deslizamento não acontece com um estrondo, mas com pequenos passos que, somados, transformam radicalmente o terreno onde caminhamos.

Há algo de inquietante na forma como a praça, esse espaço que abriga o encontro, a convivência e a conversa, parece hoje carregada por uma tensão quase bélica. A praça sempre foi o símbolo da vida comum. Lugar onde a cidade se reconhece, onde os conflitos encontram mediação, onde a política ganha corpo. No entanto, em muitos momentos do nosso presente, ela se vê transfigurada por uma lógica que lhe é estranha, como se um campo de batalha silencioso se instalasse ali, entre corpos que se olham não mais como cidadãos, mas como potenciais adversários. O território que antes servia para articular diferenças agora é atravessado por uma linguagem de hostilidade, alimentada por discursos que tratam a divergência como ameaça e a disputa como guerra. A praça resiste, mas a guerra simbólica insiste em ocupar seus contornos, até o ponto em que a política deixa de ser o gesto de formar um mundo comum e passa a ser a tentativa de defender trincheiras que mudam de lugar conforme o medo ou a retórica impõem seus mapas.

A reflexão sobre a política como espaço tensionado pela guerra não nasce no presente. Já na Antiguidade havia uma noção clara de que o poder se reorganiza quando a comunidade se sente sitiada. Cícero, por exemplo, no século I a.C., insistia que as leis existem para proteger a cidade tanto da violência externa quanto da sua própria desordem interna. Ao mesmo tempo, reconhecia algo que atravessa os séculos. Diante do perigo extremo, Roma recorria a mecanismos de exceção que concentravam poderes extraordinários nas mãos de um único magistrado. O ditador romano, figura que podia suspender decisões colegiadas e agir sem consulta prévia, era nomeado não porque Roma tivesse abandonado as leis, mas porque supostamente precisava preservá-las. A justificativa era sempre a mesma. A sobrevivência da cidade exigia uma suspensão temporária da normalidade.

Essa tensão entre normalidade e exceção reaparece nas narrativas de Tito Lívio, que no livro III da sua Ab Urbe Condita descreve como, em momentos de conflito interno ou ameaça estrangeira, Roma oscilava entre reorganizar-se institucionalmente ou entregar-se a um governo extraordinário que prometia restaurar a ordem. É interessante perceber como a retórica do perigo permanente se torna um instrumento de poder. O uso político do medo transforma-se em método de governo, algo que encontra eco perturbador na maneira como as sociedades modernas lidam com a ideia de ameaça.

Em situação de conflito extremo, as palavras perdem seu significado habitual e passam a designar o seu contrário. Coragem vira temeridade. Prudência vira covardia. Moderação vira fraqueza. A guerra, neste sentido, não é apenas um acontecimento externo, mas uma perturbação da própria vida política. Ela transforma o que se pode dizer, o que se pode fazer e o que se pode justificar.

A figura de Marco Antônio, especialmente quando aparece em Plutarco, também ajuda a compreender a dimensão teatral da guerra na política romana. Ele representa o político que transforma o conflito em identidade. Que constrói autoridade ao dramatizar o momento histórico e ao distribuir lealdades como se fossem armas. A guerra, nesse caso, não é apenas campo de batalha, mas narrativa. E a narrativa, uma vez assimilada pela política, tende a substituir o argumento pela urgência, o debate pela paixão, a lei pela exceção.

Esses autores, separados por séculos e contextos distintos, convergem em um ponto essencial. A guerra reorganiza o campo do possível. Suspende limites. Altera vocabulários. Transforma adversários em inimigos. Converte o medo em instrumento político. A modernidade inventou outras formas de nomear esses processos, mas a intuição fundamental já estava lá nos relatos dos antigos. Toda vez que uma comunidade se sente em estado de guerra, real ou simbólica, ela passa a admitir gestos que antes considerava intoleráveis. É nessa fronteira instável entre necessidade e abuso que a política começa a se confundir com exceção.

A palavra guerra carrega um peso que atravessa séculos e sociedades. No imaginário político contemporâneo ela reaparece de modo insistente e às vezes até banalizado, como se o vocabulário militar tivesse migrado para o centro da vida pública e tomado conta do modo como descrevemos os conflitos que atravessamos. Há algo de revelador nisso, sobretudo quando observamos o cenário brasileiro e seu estado persistente de polarização. A guerra se torna metáfora da política e, em certos casos, metáfora que opera quase como fato.

Quando um país entra realmente em guerra passa também a viver sob outra lógica jurídica e administrativa. Isso ficou claro em tantos episódios históricos e continua evidente em situações recentes, como a da Ucrânia. A normalidade é suspensa e abre-se um regime em que a sobrevivência do Estado se impõe às garantias ordinárias. No Brasil existe a figura da GLO, a Garantia da Lei e da Ordem, que já foi acionada diversas vezes em momentos considerados críticos – e que recentemente foi planejada como resposta ao resultado das eleições presidenciais (wtf!). Entre outras coisas, ela representa essa ideia de exceção jurídica e concede às Forças Armadas um papel que em tempos regulares não lhes pertence. Em Portugal, assim como no Brasil, existem mecanismos constitucionais como o Estado de Emergência ou o Estado de Sítio, que também pressupõem a suspensão temporária de certas garantias quando a ameaça é considerada grave. Cada país encontra sua forma de traduzir juridicamente a ideia de que, diante do colapso, tudo pode ser reorganizado para preservar o que resta do corpo político.

O problema começa quando esse raciocínio deixa de ser mecanismo de emergência e passa a ser adotado na política cotidiana. Quando a política se apropria da lógica da guerra, ela abandona o campo do desacordo mediado e se instala no terreno em que a exceção se normaliza. A guerra não tolera adversários. Tolera inimigos. A guerra não admite hesitação. E a política que se pensa em guerra acaba por assumir a mesma urgência que dispensa prudência, negociação e limites. Não se trata mais de convencer o outro, mas de derrotá-lo. Isso tem consequências profundas, porque dissolve a ideia de que a democracia é um regime de convivência entre diferenças.

A metáfora da guerra atua como um solvente que fragiliza a linguagem e os valores que sustentam o pacto democrático. Giorgio Agamben, em seu livro de 2003 sobre o estado de exceção, discute como os momentos em que a lei se suspende para salvar a ordem podem se tornar mecanismos permanentes de governo. Carl Schmitt, décadas antes, em 1932, já sublinhava que o núcleo do político seria a distinção entre amigo e inimigo. Quando essas ideias se deslocam para o cotidiano de um país polarizado, deixam de ser diagnósticos teóricos e passam a fornecer uma gramática pronta para justificar práticas que escapam do controle institucional e ético.

O mais inquietante é perceber como essa mentalidade afrouxa as amarras morais que antes delimitavam a ação política. Quando se entende que há uma guerra em curso, todas as contradições se tornam justificáveis. O político que defendia um conjunto de valores pode abandoná-los sem grande esforço porque a narrativa da guerra autoriza exceções contínuas. Michel Foucault, em suas aulas de 1976, chamou atenção para a ideia de que a política moderna frequentemente recupera formas de guerra ao gerir a vida e a morte das populações. Não se trata de um conflito armado, mas de um modo de organizar as relações de força que atravessam a sociedade. Quando esse modo de pensar se espalha, mesmo sem ser formalizado juridicamente, normaliza-se a percepção de que vivemos num campo de batalha permanente e, portanto, nenhuma regra se aplica de maneira estável.

Isso produz um ambiente em que a coerência se torna secundária e a fidelidade a um bloco político se sobrepõe à fidelidade a princípios. A política deixa de ser negociação e passa a ser sobrevivência. Quando tudo parece ameaçar o nosso lado, qualquer gesto se torna legítimo porque supostamente protege um bem maior. A ideia de bem maior, porém, raramente é definida com precisão e frequentemente se confunde com identidades frágeis que se sentem atacadas por discursos diferentes dos seus. Há uma dimensão emocional intensa que alimenta a metáfora da guerra, uma sensação de vulnerabilidade que transforma divergências em ameaças existenciais. Isso torna a sociedade mais disposta a aceitar discursos agressivos e procedimentos excepcionais como se fossem ferramentas necessárias e inevitáveis.

É justamente aí que reside o perigo. Quando a guerra deixa de ser um fato histórico e passa a ser um modo de compreender a política, os mecanismos de exceção deixam de ser raros e se tornam disponíveis a qualquer momento. A fronteira entre legalidade e arbitrariedade se desfaz. A fronteira entre o possível e o que deveria ser impossível se torna porosa. A democracia depende de limites e de rituais de contenção que a guerra desautoriza. Quando esses limites se fragilizam, a política se empobrece intelectualmente, moralmente e institucionalmente. Perde-se a capacidade de imaginar um futuro comum, porque a guerra não projeta convivência. Projeta vitória.

É nesse ponto que a imagem da praça retorna. A praça só existe enquanto espaço comum porque admite a imperfeição, o ruído, o desacordo e a presença de corpos distintos que precisam aprender a coexistir. Quando a lógica da guerra invade seus contornos, ela se estreita, se retrai e perde sua vocação de lugar aberto. A política, para reencontrar seu fôlego democrático, precisa devolver à praça esse caráter de arena compartilhada, onde divergências são possíveis e até necessárias, mas onde não se espera que ninguém entre armado, mesmo que apenas simbolicamente. O gesto inaugural da democracia é simples e profundo. Sentar-se na praça sem olhar o outro como ameaça. Se a guerra transforma a cidade num conjunto de trincheiras móveis, é a praça que devolve à cidade o sentido de comunidade. Talvez seja ali, nesse espaço que resiste apesar de tudo, que a política possa voltar a respirar fora da lógica do inimigo e reencontrar a possibilidade de construir um mundo comum.

A guerra, esta máquina, é ótima para discursos. Para as democracias, segue sendo um veneno lento. Portanto, a pergunta que resta é inevitável: por quanto tempo vamos bebê-lo como se fosse remédio?

ABEL

Uma antiga estação de trem; vista de frente, sob um corte longitudinal. Em toda a sua extensão se podem ver compridos bancos de madeira, uma entrada para o corredor de acesso aos banheiros e um guichê de compra de bilhetes à entrada da estação. Ao longo da parede, estende-se um balcão de um comércio. Na calçada, em frente ao trilhos, nasce um poste sustentando um sino de corda. Em cima da estação, um alto falante.

ou não.

Foco de luz forte atravessa o palco como faróis dianteiros de trem. Sons de pessoas andando, conversando. Sons de últimas chamadas, de trem partindo, de pessoas e de outros trens.
Abel e Caim com sacolas na mão.


Abel – Aqui não é o 6.

Caim – Quê?!

Abel – Aqui não é o 6. Deve ser em outro lugar. Aqui diz que é o 9.

Caim – Aqui é o 6, sim! O papel está de cabeça pra baixo. E na entrada tinha um cartaz dizendo que aqui só vai até o 7. Não existe o 9.

Abel – Ah! Pois..É verdade. Asno!

(tempo)

Caim – Ponha a sua sacola aqui. Venha. (procura lugar entre os assentos)

Abel – Pode deixar, não precisa.

Caim – O que é que tem aí?

Abel – Quase nada. Chega pra lá. E o trem?

Caim – Vai demorar.

Abel – É. Sempre demora.

Caim – Esse vai demorar muito. A gente chegou muito cedo. Vamos ficar mais pra cá, isso aqui quando encher vai ficar um inferno. A gente entra primeiro.

Abel – O lugar é marcado.

Caim – Eu odeio fila.

Abel – Você não precisa pegar a fila.

Caim – Eu sei. Mas é que ser o primeiro dá um sensação de liderança, ordem. Sei lá. Imagine, as pessoas vão chegando e nos encontram em pé, com as malas entre as pernas, sinalizando ali como início da fila.

Abel – Você viu o meu lenço?

Caim – O berço, o marco, o ponto zero daquela ordem estabelecida.

Abel – Você viu o meu lenço?

Caim – Daí a fila vai se formando nesse lugar que nós escolhemos que começasse. Nós seríamos como os anciãos da fila. As pessoas quando chegam numa fila muito grande sempre procuram saber com os olhos quem são os primeiros. E fazem suposições sobre desde quando esses “primeiros” chegaram ali, ou até mesmo sobre a que horas eles devem ter despertado de suas camas para poderem estar ali e serem de fato “os primeiros”. Tem muita coisa por trás de uma coisa só.

Abel – Merda! O meu lenço, você viu?

Caim – E se acontecesse algum acidente, sei lá. Sempre que isso acontece as pessoas sempre perguntam suas curiosidades para as pessoas que estavam há mais tempo ali. E aí se cada sucessor perguntasse ao seu antecessor sobre alguma coisa, no final só restariam nós, e a gente seria os donos da história! Você não tá ouvindo nada né?!

Abel – Achei! (tira uma maçã da sacola) Quer? Tô com fome (limpa a maçã no lenço).

Caim – Você vai comer assim?

Abel – Assim como?

Caim – Tá estranha. Feia.

Abel – Eu gosto de maçã de qualquer jeito.

Caim – Eu queria ser assim, pegar uma maçã com gosto pra comer. Não consigo. O pai também gosta de maçãs.

Abel – Eu sei. Eu e papai temos gostos parecidos.

Caim – Vocês são muito parecidos.

Abel – Ele repetiu mais de dez vezes para a gente mandar uma carta assim que a gente chegar.

Caim – Se a gente lembrar.

Abel – Eu vou lembrar. Tem três noites que eu não durmo só de pensar nessa viagem.

(tempo) 

Caim – Tem gente que sempre senta no canto.

Abel – Que gente?

Caim – Gente que tem medo de ser vista. Que quer observar o movimento sem fazer parte dele.

Abel – Eu sento no canto às vezes.

Caim – Eu sei.

(tempo)

Abel – E o meio? Quem senta no meio?

Caim – Gente que não quer decidir nada. Nem cedo demais, nem tarde demais. Fica ali, esperando ser levado pela corrente.

Abel – E você?

Caim – Eu fico perto da porta. Pra sair primeiro. Ou pra fugir se der errado.

Abel – Você sempre escolhe o lado que bate mais vento.

Caim – É. Gosto de sentir que posso ir embora a qualquer hora.

(tempo)

Abel – Eu acho que escolho pelo sol.

Caim – Você sempre escolhe pelo sol. Mesmo que ele esteja te cegando.

Abel – Porque ele me aquece.

Caim – E eu escolho a sombra.

(tempo)

Abel – Você não acha estranho que a gente sempre se senta assim?

Caim – Como?

Abel – Um ao lado do outro. Um no sol, outro na sombra.

Caim – Talvez por isso nenhum de nós nunca enxergue o outro direito.

(longa pausa. Abel olha para o céu, depois fecha os olhos.)

Abel – Eu queria ver o que você vê.

Caim – Eu queria parar de ver.

(tempo)

Caim – Alguém podia morrer.

Abel – O que?

Caim – Você sabia que uma maçã que despenca de uma altura de 160 metros de altura pode atingir uma velocidade de 144 quilômetros por hora? E que se por acaso essa maça atingisse alguém, o resultado será no mínimo um acidente fatal?

Abel – A última coisa que uma maçã iria me lembrar seria a morte.

Caim – A maçã já representou muita coisa nessa vida.

Abel – Pois se eu pudesse ficava horas comendo essa maçã, só para tentar registrar na minha memória o gosto “dessa” maçã. Dessa maçã. Essa especificamente. Não outra. Essa!

Caim – Dentro ela é a mesma de todas as outras. O que muda é o que você faz com ela.

Abel – Sinto a polpa da fruta passar pela minha boca, nos meus dentes, minha língua percebe o doce, depois o amargo, aí minha saliva se produz em maior quantidade, faz um bolo só e depois desce suavemente a garganta.

Caim – Não vale a pena tanto cuidado. Mais tarde você tem mais fome, come outra maçã e esquece dessa.

(tempo)

Abel – É. A gente deveria conseguir lembrar de tudo que a gente quer. Não existe coisa melhor do que a pessoa conseguir se lembrar de tudo que ela pode, ou de tudo que ela quer.

Caim – E não querer lembrar e não conseguir, como faz?

Abel – Como assim?

Caim – Nunca consigo me desfazer da cena do pai segurando aquela bandeira no dia da festa dos Rei-Santo!

Abel – Eu lembro! Pedimos a ele que levantasse a bandeira quando a água atingisse o nível do reservatório. Foi você ou eu quem gritou? Estávamos tão longe, não sei.

Caim – A água já estava transbordando, o pai levantando a bandeira com toda a força, parecia que queria sinalizar à algum soldado no deserto da China de tão forte e vibrante e…!

Abel – (gargalhada)

Caim – O exército ia fazendo a marcha da festa, quando o primeiro sargento avistou a bandeira balançando, achou que fosse um sinal de deslocamento do local da festa, e guiou todos aqueles duzentos homens de farda de gala e espingardas em direção à nossa casa..

Abel – (gargalhada)

Caim – O pai quando viu o exército em sua direção, de tão nervoso, começou a balançar cada vez mais forte e mais rápido e maior e com mais força..

Abel – (gargalhada) A cara da mãe. Quase desmaia.

Caim – (gargalhada) Apanhamos muito. Aliás eu apanhei muito.

Abel – (gargalhada) Os primeiros primeiro!

Caim – (começa a parar de rir)

Abel – (gargalhada)

Caim – (espera Abel acabar de rir)

Abel – (gargalhada)

Caim – Chega.

Abel – (risos)…quê?

Caim – Pronto, acabou!

Abel – O quê?

Caim – Não tem por que dar tanta risada. A piada já acabou.

Abel – Ái, desculpa…

(tempo)

Caim – A piada aconteceu, depois falamos, depois acabou e você ficou forçando, forçando..

Abel – Sei lá. É que eu não lembrava disso. Nossa, quanto tempo.

(As luzes da estação se dissolvem lenta e suavemente. Som de água corrente. Os irmãos se tornam crianças )

Abel (criança) – O rio vai me levar?

Caim (criança) – Só se você quiser.

Abel – Mas se eu quiser voltar?

Caim – Ah, rio não volta.

Abel – Por que não?

Caim – Porque se ele voltasse, ele virava poça.

Abel – Poça não é ruim.

Caim – Poça morre.

(tempo)

Abel – E se eu for com o rio?

Caim – Vai ficar longe.

Abel – Mas se eu gritar você me ouve?

Caim – O grito morre no meio.

Abel – E se eu me esconder dentro do rio?

Caim – Aí você some.

(Abel começa a tirar os sapatos)

Abel – Pai disse que o rio cura.

Caim – Pai também disse que o rio morde.

Abel – Ele morde quem não confia.

Caim – Eu confio.

Abel – Mentira.

Caim – Eu confio.

(Abel entra lentamente no rio )

Abel – É frio.

Caim – Então sai.

Abel – É bom.

Caim – Então volta.

Abel – Eu não posso voltar.

Caim – Você nem foi.

(Abel mergulha. Silêncio. Caim corre até a borda do rio.)

Caim – ABEL!

(Abel sai devagar, molhado. As roupas não mudaram, mas sua respiração é outra.

Abel – Eu sonhei que era o pai.

Caim – E o que ele fazia?

Abel – Me deixava ir.

(O som do rio começa a se misturar ao som da estação voltando. Lentamente, a luz e o espaço retornam; chegada de um novo trem sob a forma de sons e luzes, e vozes de orientação nos alto-falantes, aos sons de pessoas em aglomeração na estação.

Caim – Depois desse, mais 3.

Abel – ….

Caim – Ainda vai demorar.

Abel – Tudo bem.

(tempo)

Abel – Como tá aí?

Caim – O que?

Abel – Aí no rosto.

Caim – Ah, às vezes lateja um pouco. Mas está melhor…doendo menos.

Abel – Posso ver?

Caim – Não.

Abel – Acho que já tá na hora de trocar o curativo.

Caim – Não precisa.

Abel – Deixa eu dar uma olhada.

Caim – Não quero que toque.

Abel – Você vai continuar com isso?

Caim – Eu tenho direito de não querer. Ora..

Abel – Você sabe que precisa trocar, tem que ver como está. A mãe não está aqui e você não consegue fazer sozinho. Você tem um ferimento e ignora o risco de inflamar, pegar uma infecção, por bobagem..

Caim – Já falamos disso.

Abel – E eu já te prometi. não vai acontecer de novo.

Caim – Melhor não arriscar.

Abel – Daquela vez eu acabei agindo por impulso e você também acabou não fazendo nada então..

Caim – Eu não quero.

Abel – Deixa eu ver.

Caim – Não.

Abel – Por favor…

Caim – ….

Abel – Você precisa desconhecer o medo.

Num rompante, Caim abandona a conversa e, com rapidez se dirige à algum outro salão da estação – ele sai de cena e rapidamente volta. Emenda:

Caim – O bilhete tá com você?

Abel – Não..Ái, meu Deus! Tava…ah, aqui.

Caim – Me dá. Deixa comigo.

Abel – Ótimo. Melhor deixar os dois juntos mesmo.

(Tempo)

Abel – Você não parece muito ansioso pra chegar logo.

Caim – Não ?

Abel – … Não.

Caim – Acho que eu estou é com sede, mais do que qualquer outra coisa.

Abel – Eu trouxe água. Espera. Pouco antes de sair o pai me deu. Chamou por você mas parece que já estava pra depois do portão do jardim.

Caim – Ele não chamou por mim.

Abel – Chamou, eu ouvi.

Caim – Ele chamou você. Ele deu a água para você.

Abel – Talvez porque eu respondi logo.

Caim – Eu ouvi. Ele não chamou.

Abel – Eu estava lá.

Caim – Ele não perguntou nem da ferida.

Abel – Ele achava que já estava quase boa.

Caim – “Durante o sono o subconsciente toma a frente da verdade”.

(tempo)

Abel – Ele estava brincando.

Caim – Ele acha que eu mesmo me fiz isso! E pior, porque eu quis.

Abel – Quando bebe fala bobagens, você sabe mais do que nin…

Caim – Eu sei que ele sabe que eu bem sei.

Abel – Eu tinha acabado de raspar o molho de lenha quando nosso pai…

Caim – Ele não é meu pai!

(tempo)

Abel – Calma meu irmão. Tudo bem, vem aqui.

Caim – Ele preparou o cantil para você! É para você que ele roga todos os sacrifícios e todas as precauções! Os créditos, as oferendas, as súplicas…

Abel – É só uma água.

Caim – Você sabe que não é.

Abel – Nós ainda conversamos, e ele perguntou se as cabras tinham sido apartadas hoje. Eu não soube responder.

Caim – Eu esqueci.

Abel – Foi, ele disse.

Caim – Ele disse?

A conversa é interrompida pela chegada de um novo trem sob a forma de sons e luzes, e vozes de orientação nos alto-falantes. Sons de pessoas em aglomeração na estação. Os dois continuam a conversa com dificuldade até a partida do trem, sob os ruídos do caos estabelecido.

Abel – Quê ?

Caim – Eu perguntei se ele disse.

Abel – Ele disse.

Caim – Sim, isso eu já entendi. A pergunta é retórica.

Abel – Oi?

Caim – Ah, esquece.

Abel – Desculpa meu irmão, é que com esse barulho…

Caim – Eu quero saber o que foi que ele disse!

Abel – Não consigo ouvir uma palavra…

O trem parte, os ruídos cessam e, seguindo o ritmo da conversa, Caim responde no silêncio que resta.

Caim – Ah, vai a merda!!

(tempo)

Imóvel, Abel fixa os olhos em seu irmão. O silêncio profundo toma conta dos dois e de toda a estação. Constrangido, Caim nada diz. Abel, pega sua sacola e sai.

Caim – Aonde você vai ? O nosso trem pode chegar e eu vou ter que sair procurando você, vai ser um inferno. É melhor você não ir muito longe!

(Tempo)

Caim espera Abel voltar. A espera é maior do que ele imagina. Um certo incômodo se percebe no ar, em Caim.
Depois de algum tempo, Abel surge segurando um nacho de balões de ar coloridos.


(Tempo)

Caim – Oi. Desculpa, eu ia…

Abel – Tudo bem.

Caim – É esse trem, esse tempo, esse calor, essa agonia…

Caim – Que é isso?

Abel – Comprei pra você.

Caim – Pra mim?

Abel – Eu sei que você adora. Vejo como ficam seus olhos sempre que vamos ao parque.

Caim – Eu adoro.

Abel – Te amo.

Caim – Quando éramos crianças eu queria fazer coleção de balões.

Abel – Te amo.

Caim – Depois descobri que isso seria quase impossível, em si tratando de balões.

Abel – Te amo.

Caim – Você lembra uma vez que a gente…

Abel – Te amo.

Caim – …foi na vila com o pai pra buscar..

Abel – Te amo.

Caim – Pára.

Abel – Pra buscar as molas que ele comprou e aí tinha um circo na praça.

Caim – Pára!

Abel – Claro que eu lembro. 

(tempo)

Abel – E se eu ficar?

Caim – Ficar?

Abel – Aqui. Esperando os trens passarem, sem entrar em nenhum.

Caim – Não tem graça.

Abel – Às vezes acho que só entrei em trens que você escolheu.

Caim – Você é livre pra escolher.

Abel – Mas toda vez que eu escolhi, você disse que era errado.

Caim – Porque era.

Abel – Ou porque era só diferente?

(tempo)

Caim – Você não vai ficar.

Abel – Talvez eu já tenha ficado. Só estou esperando que você vá.

(Caim respira fundo, tenso.)

Caim – Você quer me punir?

Abel – Eu quero que você me veja.

Caim – Eu te vejo todo dia.

Abel – Não. Você vê o reflexo do que queria ser.

Caim – Eu não queria ser você.

Abel – Então por que me empurra pra frente de todos os trens que você não tem coragem de pegar?

Caim – Porque se eu não te empurrar, você nunca vai sair do lugar.

Abel – Ou talvez eu esteja onde devo estar.

(tempo)

Ao fundo, distante, o som de um novo trem

Abel – Lá vem vindo o próximo trem.

Caim – esse não têm parada aqui. Passa direto.

Abel – Acaba logo com isso.

Caim – O que ?

Abel – Eu sei.

Caim – …Não entedi

Abel – Eu sei porque estamos aqui.

Caim – Não estou entendendo.

Abel – Sim. você está.

Caim – Estamos indo na Santa Casa da cidade ver a ferida. Pra não infeccionar, o que falamos antes..

Abel – E eu também sei que só existe um bilhete no seu bolso.

(tempo)

Caim – Eu menti.

Abel – Eu sei. Existe uma ingenuidade na mentira que é indício de boa fé.

Caim – Você é bom.

Abel – Você também é.

Caim – Nós não podemos. É contra a natureza, contra Deus.

Abel – Nós somos a natureza. E somos parte dele também.

Caim – Ele não permitiria isso.

Abel – Somos desonestos com Deus. Às vezes não permitimos que ele possa pecar.

O som do trem vai ficando mais forte sugerindo que esteja mais perto.

Caim – Eu não queria isso.

Abel – Eu sei. Eu acredito.

Caim – Essa ferida…

Abel – Ela é sua.

Caim – Ela dói.

Abel – E vai continuar. Você se acostuma.

Caim – Por que tudo isso, assim?

Abel – Porque tudo sempre foi assim.

O som do trem fica mais forte; quase chegando na estação.

Caim – Às vezes parece que Deus some.

Abel – Acabado seu trabalho e assumida a forma de serpente, Deus se aconchegou nos pés da ciência. Descansou do cansaço de ser Deus. Fez bem. O Diabo nada mais é que o oćio de Deus a cada sete dias.

Caim – Amo você.

Abel – Faça.

Abel está de costas para o trilho. Caim empurra Abel para frente do trem. As luzes ofuscam e o som toma conta de todo o espaço. Os balões sobem lentamente para o céu.

FIM

———————————————————-

ABEL foi escrito em 2014. Em 2016, integrou a dramaturgia do espetáculo “Maçã – Um Acontecimento Cênico”, do COATO Coletivo Cênico, realizado em Salvador/BA, com encenação de Marcus Lobo.
Para minha imensa alegria. 

© Rafael Medrado, 2014–2025. Todos os direitos reservados.
Este texto é protegido por direitos autorais.
Para montagem, leitura pública, adaptação ou qualquer uso profissional, entre em contato com o autor pelo e-mail: medradorafa@gmail.com.

A reprodução não autorizada ou o uso sem crédito poderá ser considerado violação legal.

Antes do apogeu: entre o real e o presente

(Lisboa, primavera)

Foto irreal gerada por IA

Foi num desses dias que parecem não pertencer mais à primavera, mas que ainda não se reconhecem como verão. Um entretempo. Uma vibração que começa a se insinuar na pele e nos passos das pessoas na rua. Lisboa começa a se oferecer de outro modo: mais aberta, mais morna, como se já tivesse esquecido os meses de frio. O festival acontecia ali, no meio desse deslocamento de estação, como se também ele anunciasse o que ainda não chegou. E se chamava Coala, nome de bicho terno, sim, mas que aqui abrigava outra coisa: uma festa de gente que canta, dança e carrega no corpo a história inteira da sua identidade e do seu povo.

Foi nesse espaço que a presença se impôs como experiência e não como conceito. E eu insisto: presença, e não apenas o “ao vivo”. Porque o ao vivo já não basta. O ao vivo pode ser um evento transmitido em tempo real, pode ser um story, pode ser o direto de um ecrã. Mas a presença — essa coisa que escapa à mediação, ainda exige mais: exige o corpo ali. Exige tempo espesso. Exige atenção. Exige, sobretudo, risco.

E então surge a voz, o corpo e a luz. Ney Matogrosso, no auge do seus 82, no palco, com um figurino que lhe cobria todo o corpo de cristais e pedras que reluziam, e não na tela era isso: um choque de presença. Um estremecimento. Um gesto de interrupção na lógica contínua da imagem. Não se tratava de assistir a Ney. Tratava-se de estar com ele, num mesmo tempo, num mesmo espaço. Sentir que aquilo não se repetiria, que não havia replay, que cada gesto seu, o timbre, a dança, o silêncio entre uma música e outra, estava acontecendo agora, e apenas agora. Não que eu sempre tivesse sido um fã inveterado pelo Ney, embora já tive a glória da oportunidade de assistir outros artistas mais admirados por mim , dos tropicalistas à velha guarda do samba e da bossa. Mas a comoção pela presença rara daquele grande artista me fez sentir e observar aquele momento com um sabor especial. 

Philip Auslander já nos alertava, ainda em 1999, que a distinção entre o “ao vivo” e o “mediatizado” é, no fundo, uma construção cultural. Em Liveness, ele mostra como mesmo os eventos presenciais são atravessados por lógicas da reprodução: há um imaginário midiático que estrutura o que esperamos ver, como esperamos reagir, como devemos nos comover. É verdade. Mas há algo mais. Algo que não se reduz à oposição técnica entre o que é captado e o que é experienciado. Algo que não pode ser empacotado. Aquilo que se esgota no instante, mas que deixa em nós um rastro inapagável.

Essa coisa, difícil de nomear, talvez se aproxime do que Agamben chamou de kairos: o tempo oportuno, o instante carregado de potência. O tempo que não é cronológico, mas existencial. Viver um tempo fora do tempo. Um tempo contra a aceleração. Contra o consumo. Um tempo espesso como um corpo, como uma nota que se sustenta por mais do que devia. O tempo da suspensão.

E havia também os outros. Os que estavam ao meu redor. Não como cenário, mas como extensão do próprio acontecimento. Vozes uníssonas, corpos bailando sem coreografia, mãos trêmulas segurando celulares que às vezes filmavam, mas logo desistiam. Porque filmar já não era suficiente. Porque o real, ali, se impunha como uma espécie de assombro calmo. Como se, de repente, todos estivéssemos reaprendendo a estar. Reaprendendo a ver — com os olhos todos, não só com a retina.

Walter Benjamin, quando pensa na aura da obra de arte, diz que ela se ancora justamente nesse aqui e agora, nesse encontro irrepetível entre espectador e objeto. Com a técnica, essa aura tenderia a desaparecer. Mas talvez ela não tenha sumido: talvez só tenha se escondido. A aura, hoje, precisa ser buscada com mais esforço. Como nos momentos em que Ney estendia os braços e o público respondendo não com gritos, mas com um silêncio mineral antes da ovação, não era sobre ele. Era sobre nós. Sobre o fato de estarmos ali. Sobre a nossa rara disposição para o agora.

Num mundo orientado pela velocidade, pela repetição e pelo arquivo, a presença é resistência. Assistir é um ato político. Estar é quase uma revolução.

Mas o que é estar, afinal, num tempo que exige prova constante da existência? O que é viver, se viver não basta, se é preciso registrar, publicar, partilhar, legendar? O que é a experiência, se ela precisa ser moldada à gramática da visibilidade para ser validada como real?

Vivemos o tempo do pós-digital, como definem alguns pensadores: um tempo em que o digital não é mais novidade nem exceção, mas a regra silenciosa que molda nossa percepção do mundo. Tudo é tela. Tudo é dado. Tudo é potencialmente conteúdo. Não é só que “se não postou, não aconteceu”, é que, muitas vezes, só se vive para poder postar depois. A experiência é convertida em pré-experiência: é vivida já como representação. Isso não é culpa individual. É uma lógica. Um sistema de atenção. Um metabolismo da imagem.

E é por isso que momentos como aquele, uma noite qualquer, no meio de Lisboa, no início ainda vacilante de um verão, são mais do que bonitos. São raros. São contrafluxo.  São brechas num presente programado. São os poucos instantes em que o tempo não se comprime em cliques, e onde o real ainda pode ser mais do que um arquivo: pode ser respiração, pode ser encontro, pode ser susto, pode ser presença.

E eu diria mais: são resistência.

Resistência contra a ordem da produtividade, da monetização da atenção, da aceleração contínua. Porque estar parado ali, apenas estar, sem pressa de sair, sem ansiedade de registrar, sem expectativa de “aproveitar melhor” o tempo; era, naquele momento, um gesto radical. Um ato de desvio.

Estamos numa era marcada não pela escassez de tempo, mas pela sua dispersão. O tempo já não se organiza em narrativas, ele se esfarela em episódios, em interrupções, em cortes e notificações. Vivemos em uma “crise temporal” onde tudo acontece ao mesmo tempo e nada realmente acontece. Porque o tempo, quando não é vivido, se configura apenas como passagem.

Por isso, parar, como se para respirar de dentro da própria experiência; é resistência. Resistência contra a lógica da performance contínua, contra a hiperconectividade que fragmenta, contra a obrigação de estar sempre atento e disponível. Parar ali, de pé, entre outros corpos, sem tarefa, sem meta, apenas entregue ao som de “Jurei mentiras e sigo sozinho..”, à dança de Ney, ao brilho de Ney, à alguém ao lado, ao suor que escorria na pele — era um gesto mínimo, mas profundo. Um gesto que dizia: agora não. Agora é só agora.

Na lógica da economia da atenção, toda experiência precisa render algo: um clique, um dado, um resultado. A contemplação, esse tempo silencioso, sem retorno imediato, é considerada inútil. Mas é justamente nesse espaço do inútil, do improdutivo, que o real se manifesta com mais força. A experiência não precisa servir para nada. Ela só precisa ser.

É por isso que aqueles instantes, naquele festival, naquela Lisboa expandida pela estação e pelo afeto, não foram apenas bonitos ou comoventes. Foram acontecimentos de mundo. Frestas num cotidiano excessivamente legível. Pequenas anomalias onde a vida reaparece, não como conteúdo, mas como presença. Como afirmação de que o real ainda pode ser vivido sem ser capturado. Sem ser traduzido. Sem ser vendido.

E talvez a tarefa seja essa: restituir espessura ao tempo. Devolver ao agora a densidade que lhe foi roubada. Reconhecer que estar num instante, inteiro, sem desejo de ir embora, é o contrário da pressa e o oposto da distração. É um ato de escolha. E de coragem.

Porque enquanto tudo nos empurra para o depois, a presença nos devolve ao agora. E isso, hoje, é um gesto profundamente político. Se o tempo verdadeiro é aquele que suspende a norma, então talvez a única forma de resistir ao tempo acelerado e opaco do agora seja essa: encontrar o gesto que não se deixa capturar. A palavra que escapa à legenda. O olhar que não busca uma boa imagem, mas apenas vê. A vida, nesse instante, não era conteúdo.
Era acontecimento.

Comer o Mundo, Criar o Brasil: O Ingrediente Oculto da Expressão Cultural Brasileira

“Seu sangue corre em minha veia como um rio de coragem; eu sou aquele que vence o tempo e faz do inimigo, irmão. Queima em mim a força dele, e nos tornamos um só, pulsando sob o céu, como a chama que nunca se apaga.” Antônio Torres, Meu Querido Canibal

Antropofagia – Tarsila do Amaral

“Comer para se tornar mais forte, comer para ser o outro e, ao mesmo tempo, ser mais de si.” A frase poderia ter saído do coração de um manifesto ou do interior de uma aldeia Tupinambá. Na verdade, ela ecoa lá de trás, das primeiras histórias que o Brasil contou a si mesmo. Quando o alemão Hans Staden, prisioneiro dos Tupinambás no século XVI, observava os rituais de antropofagia e tremia ao ver-se quase devorado, ele provavelmente não conseguia entender o que aquilo significava. Staden nos legou um relato precioso: uma imagem que chocaria a Europa e, séculos depois, seria reinterpretada não como um ato de barbárie, mas como o início de uma ideia; a primeira semente do que, com o tempo, se tornaria a filosofia da Antropofagia Cultural Brasileira.

Os Tupinambás comiam seus inimigos porque acreditavam que, ao devorar a carne, tomavam para si a força e as virtudes do outro. Algo que, para eles, era parte de um pacto com o mundo, um diálogo entre corpos, uma dança entre vivos e mortos. Comer para absorver, comer para transformar. E não foi isso, afinal, o que o Brasil fez ao longo de sua história? Engolimos o mundo, comemos influências, devoramos culturas, e transformamos tudo em algo novo, algo com gosto de sol e terra.

Hans Staden escreveu Duas Viagens ao Brasil (1557), e o teólogo francês Jean de Léry escreveu Viagem à Terra do Brasil (1578). 1 Ali, entre espantos e perplexidades, encontramos o embrião da ideia de antropofagia. Para os europeus, aquilo era canibalismo; para os Tupinambás, era ritual e cultura. O canibalismo Tupinambá assustava e fascinava, mas também plantava uma ideia: uma sociedade que devora o outro não por ódio ou fome, mas para criar uma fusão, uma força.

Começo pela obra do alemão porque foi a única que li. Staden, com seu olhar estrangeiro e espantado, observou o Brasil pela primeira vez. Um aventureiro à deriva, com um trajetória maracada por lutas ora do lados dos portugueses ora dos franceses, capturado e preso pelos tupinambás, viu de perto o que parecia ser o “terror canibal” e transformou esse fascínio em palavras. Ficou 9 meses preso, sob a condição de lutar a favor daquela etnia para pagar sua pena e por muito pouco não foi devorado. Seu livro, Duas Viagens ao Brasil (1557), registra a dor e o encantamento de um mundo onde, entre outras coisas, o ritual de comer o outro não era só selvageria — era uma forma de assimilação, uma fusão de corpos e espíritos. Um espetáculo que durava dias, com roteiro bem estruturado e performances impactantes. 2

Séculos depois, em meio ao refinamento do século XIX, Eduardo Prado , aristocrata, grande produtor de café em São Paulo, pensador, amante das letras e fundador da Academia Brasileira de Letras, adquiriu uma edição original do livro de Staden. Não foi apenas um capricho de colecionador. Em uma época em que o Brasil buscava definir sua face, essa edição era um emblema de resistência contra o império cultural europeu, uma forma de gritar que também éramos feitos de outras raízes, que a Europa não tinha o monopólio da alma brasileira. Prado, membro de uma elite intelectual, herdeiro de uma fortuna cafeeira, tinha sede de redescobrir o que era brasileiro nos tempos ancestrais e, junto com a ABL, deu início aos registros deste “Devir-Brasil”.

Quarenta anos mais tarde, Paulo Prado, sobrinho-neto de Eduardo, cresceria com essa memória ancestral, um eco de selvageria civilizada que o acompanharia até a Semana de Arte Moderna de 1922, que ele ajudou a financiar. Paulo Prado se tornaria o mecenas de uma geração que carregava em si a faísca da transformação e da revolta. Resultado de busca incessante por uma produção artística genuinamente brasileira, a Semana foi um grito irreverente, um desejo de desmontar as convenções, devorar, com fome, as influências europeias e beber do grosso caldo das raízes locais. Foi aí que Oswald de Andrade ergueu seu Manifesto Antropófago e nos apresentou à ideia de que devorar era, na verdade, o segredo para sobreviver. Em vez de aceitar pacificamente as influências, era preciso digeri-las, transformá-las. Ou, como Oswald diria, “só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”. Talvez o Brasil fosse sempre uma promessa de antropofagia. Só precisávamos dar o primeiro passo e assumir a fome. Deixá-la existir . Não à toa “Olha aí a nossa comida pulando” era frase icónica frequentemente pronunciada entre os círculos daquele intelectuais modernistas tropicais.

“O que é nosso não queremos negar, queremos engolir e transformar.” Era essa a essência do Manifesto. Oswald propôs que, em vez de rejeitar a influência externa, o Brasil deveria devorá-la e transformá-la. Nascia aí a Antropofagia Cultural, uma filosofia que se baseia no “devorar para criar”. O Brasil, dizia Oswald, não rejeita, ele incorpora, mistura, dilui, transforma. A antropofagia indígena virou metáfora para a criação cultural. Ser brasileiro, afinal, era ter a capacidade de absorver o outro e produzir algo inteiramente novo.

Na literatura, Mário de Andrade escreveria Macunaíma, o herói sem nenhum caráter que é também todos os caracteres. “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”, diria o herói numa de suas travessuras. Em Tarsila do Amaral, a antropofagia se transformava em cor e forma com o Abaporu: a figura de pés enormes e cabeça pequena, esse homem que come gente e que é devorado pelo Brasil de mil possibilidades. Era como se, de repente, a brasilidade surgisse como um ritmo novo, como um corpo que dança com a história, devorando o passado e o futuro ao mesmo tempo.

O conceito de antropofagia estava longe de ser brincadeira modernista ou uma provocação de Oswald. O antropólogo suíço Alfred Métraux, um observador atento das culturas indígenas, mostrou o quão complexa era essa prática entre os povos originários. Seus estudos de que o canibalismo não era um espetáculo de barbárie, mas um ritual de encontro e incorporação. Um ato de comunhão, de apropriação do que o outro tem de mais vital. Era mais do que um ato físico; era uma filosofia que Oswald e seus companheiros modernistas reinterpretaram, transformando em manifesto de uma identidade cultural capaz de absorver o mundo sem perder-se nele.

Nos anos 1950, essa antropofagia se refletiu na música. A Bossa Nova foi um jeito de abraçar o jazz americano e devolvê-lo com uma suavidade tropical. Quando João Gilberto canta Chega de Saudade, ele revela o espírito de um Brasil nostálgico e delicado, uma saudade que é ao mesmo tempo leve e profunda: “Vai, minha tristeza, e diz a ela que sem ela não pode ser.” A bossa era uma antropofagia sutil, uma melodia que absorvia o estrangeiro e transformava em outra coisa, algo que o mundo ouviria com olhos fechados, sentindo o calor de uma praia distante.

Depois, nos anos 1960, a Tropicália elevaria a antropofagia ao nível da contestação, do grito político. Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e outros tropicalistas devoraram o rock psicodélico, a música popular, o samba e o que mais houvesse, para criar um som que era profundamente brasileiro e, ao mesmo tempo, mundial. Em Tropicália, Caetano descreve um Brasil mítico e real, complexo e contraditório: “Eu organizo o movimento / Eu oriento o carnaval.” A Tropicália, com sua mistura explosiva, levou a antropofagia cultural a uma nova fronteira: o Brasil não apenas devorava o outro, mas também se devorava, reinventando-se com cada novo ritmo, cada nova influência.

É emblemático o relato de Moraes Moreira sobre a visita de João Gilberto ao apartamento dos Novos Baianos, quando o grupo alugou uma cobertura em Ipanema, recém-emigrados da Bahia para o Rio, no momento em que alcançavam sucesso nacional. Segundo Moraes, além do susto de receberem à porta aquele homem que, de terno castanho e gravata preta, mais parecia um agente da ditadura que vigorava na época, João pediu que mostrassem tudo o que sabiam, que exibissem todo o virtuosismo musical do grupo. Ao final, ele os olhou e disse: “Está tudo certo, mas falta Brasil.”

Naquele momento, os Novos Baianos estavam imersos em acordes inspirados pelos novos movimentos do rock internacional, com canções embaladas por letras que traziam a leveza da Jovem Guarda e da música popular da época. Contudo, faltava a raiz e a observação de João os colocou de volta ao centro dessa busca.

Não deu outra: bebendo do samba, do baião, incorporando temas e instrumentos da cultura popular brasileira e mesclando tudo com as batidas e acordes da guitarra elétrica, os Novos Baianos deram origem ao icônico álbum Acabou Chorare, um marco de brasilidade que misturou o mundo e a terra, o novo e o tradicional, reinventando a própria identidade sonora do Brasil.

Essas expressões da música e da arte brasileira mostram como a metáfora antropofágica não se trata apenas de mistura, mas de uma criação constante, uma reinvenção contínua. Cada movimento artístico, cada expressão cultural é um novo tipo de fome. E essa fome não se sacia, porque a brasilidade é esse eterno apetite pelo outro, essa capacidade de transformar o que é externo em algo que nos define e nos amplia.

Essa fome insaciável não parou. Nos anos 1990, o Manguebeat do Recife, com Chico Science, trouxe o espírito da Tropicália para o Nordeste. Em A Cidade, Chico canta sobre uma realidade dura, uma cidade devoradora: “A cidade se apresenta centro das ambições / Para mendigos ou ricos e outras armações.” Era como se o Brasil devorasse o próprio Brasil para se entender melhor. Isto para não deixar de citar a mistura perfeita entre passado e futuro feita pelas letras e arranjos do Baiana System, atualizando toda a atropofagia musical no idos de 2010. Esse é o espírito antropofágico: não há medo de absorver, de transformar. É um ato de coragem que carrega o risco e a promessa de ser algo genuíno e mestiço.

Embora o samba tenha ganhado atenção especial em outro texto neste blog, vale ressaltar que a conhecida “MPB” é uma criação negra, que apresenta aspectos da tradição negra, portanto de uma ancestralidade africana. Por ser negra, ela é a expressão mais moderna da linguagem artística brasileira. A contribuição da música negra à musica popular brasileira é a sua própria invenção, a sua criação. 

Antropofagia Cultural: A Chave da Nossa Identidade

O conceito de Antropofagia Cultural não é apenas uma ideia bonita. Ele define a essência da cultura brasileira moderna. É a chave secreta por trás da nossa capacidade de criar uma identidade única sem negar as influências externas. É por isso que o Brasil pode produzir um Tom Jobim e um Glauber Rocha, uma Tarsila do Amaral e um Hélio Oiticica, uma Tropicália e uma Bossa Nova. Em todas essas expressões, vemos a capacidade de devorar o outro e recriá-lo de forma original.

Ao abraçar a antropofagia cultural, a cultura brasileira se torna universal sem perder a autenticidade. Somos mestiços não só no sangue, mas na alma, na estética, no som. Comer o outro é nossa forma de existir. Transformar é nossa maneira de criar. A antropofagia cultural nos ensinou a olhar o mundo, a absorver tudo o que ele tem a oferecer e a fazer disso uma nova forma de ser, uma nova arte, uma nova música, uma nova poesia.

No entrelaçamento de vozes, ritmos e cores, o Brasil é um corpo que pulsa e expande, uma pele que absorve e devolve, se desfaz e se refaz, eterno e fugaz, dançando à beira do novo e do ancestral. É uma identidade feita de pedaços do mundo, um mosaico vivo que se fortalece não nas fronteiras, mas nos abraços; não pelo que rejeita, mas pelo que devora, transforma e devolve. É a selva e a cidade, o batuque e o silêncio, a fresta por onde entra a luz e onde sempre cabem mais histórias, mais sons, mais sonhos.

Esta identidade única, fortalecida não por tudo aquilo que ela não é, mas por tudo que ela pode ser.

E continua sendo. Tal qual o Rio de Janeiro de Gil.

Notas:

  1. Ambos encontram-se em PDF e é possível encontrá-los numa rápida pesquisa na internet. ↩︎
  2. O relato de Hans Staden sobre os Tupinambás chega como uma bomba à Europa na segunda metade do século XVI. A publicação de seu livro coincide com o florescimento de ideias renascentistas e humanistas que redefiniriam a compreensão do homem e da sociedade como: Thomas More, com a sua Utopia (1516); Nicolau Maquiavel, com O Príncipe (1532); e Montaigne, em seus Ensaios (1580). ↩︎

Seis Propostas para Dar Forma ao Futuro que Ainda Não Vemos

futuro é ideia // forma é gesto // o invisível já começa a existir

Depois de quase 2 anos, enfim, terminei de ler as Seis Propostas para o Próximo Milênio

E isto se deu por alguns motivos. Primeiro porque, de lá pra cá, muita coisa aconteceu e, na concorrência pela minha atenção, as necessidades mais urgentes ganharam. Segundo, porque já adianto que Calvino nos tranquiliza, mesmo no início da obra, ao nos lembrar que não devemos cair na tentação da produtividade hiper acelerada, que nos obriga a “vencer” demandas, ainda que a literatura (e, talvez, a vida) reivindique calma e reflexão. E terceiro, foi por uma certa dificuldade focar a minha atenção e daí que a dopamina me fez despejar a minha concentração em algumas “junk thoughts“.

Mas antes me deixe ressaltar que sempre tive uma desconfiança instintiva diante de qualquer ideia que remeta a métodos, fórmulas ou receitas sobre como devemos viver, ser ou agir. “Como fazer”, “como ganhar”, “como melhorar”, “como viver”, todas essas promessas prontas, que parecem simplificar a complexidade da vida, acabam despertando em mim uma resistência silenciosa. Talvez seja um reflexo natural de quem, mesmo sendo virginiano (e, portanto, supostamente inclinado à ordem e à precisão), se recusa a acreditar que a vida possa ser reduzida a manuais. Gosto de pensar que a riqueza do existir está justamente no imprevisto, nas nuances e nas sutilezas que nenhuma fórmula poderia captar. E foi com essa leve resistência que, ainda assim, me aproximei das propostas de Calvino.

Então, Seis Propostas para o Próximo Milênio é o resultado das transcrições de cinco conferências que Ítalo Calvino preparou em 1985 para a renomada série de palestras Charles Eliot Norton, da Universidade de Harvard. A obra, porém, ficou inacabada com a morte do autor antes de concluir a sexta e última proposta. Nela, Calvino reflete sobre o futuro da literatura e da cultura no século XXI, propondo seis valores essenciais para a escrita e o pensamento. Esses ensaios, ao mesmo tempo profundos e acessíveis, revelam um olhar crítico e poético sobre temas como leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência, princípios que ele acreditava serem fundamentais para enfrentar os desafios e a complexidade do mundo contemporâneo. A última proposta, a da consistência, nunca foi escrita, o que confere à obra um caráter póstumo e inacabado, mas ainda assim poderoso em sua visão do que a literatura (e a vida) podem ser.

Ao longo desse período, percebi que Seis Propostas vai muito além da literatura. O que Calvino apresenta são, na verdade, princípios que podem ser aplicados não apenas à escrita, mas também ao modo como pensamos e vivemos. O autor nos propõe valores que transcendem o ato de contar histórias: são ferramentas para enfrentar um mundo complexo, mutável e, muitas vezes, caótico. As metáforas de leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência são, ao mesmo tempo, literárias e existenciais. Elas oferecem uma nova forma de pensar a relação entre nós e a nossa própria narrativa, seja ela no trabalho, nas relações pessoais ou nas escolhas do dia a dia.

Para Calvino, a leveza é a capacidade de lidar com o peso do mundo sem nos deixarmos esmagar. Ele vê a leveza não como fuga, mas como uma maneira de olhar o que nos oprime de uma forma diferente, mais sutil. Na vida, essa leveza pode ser a capacidade de transformar problemas pesados em algo mais fácil de carregar, sem perder a profundidade ou o significado.

“A cada vez que o peso do mundo parece esmagar-nos, tenho de pensar na leveza que pode tornar insustentável o nosso jugo.” (Leveza)

Em outras palavras, a leveza não elimina o peso das responsabilidades, mas nos ajuda a mudar a forma como as encaramos. Nos dias corridos, talvez seja exatamente esse o segredo para não sermos consumidos pela ansiedade ou pelo estresse.

A rapidez de que Calvino fala não é sinônimo de pressa. Não se trata de uma corrida contra o tempo, mas de uma agilidade mental e prática. Rapidez, no contexto da vida, significa ter a capacidade de focar no essencial, de agir com precisão e de se adaptar às mudanças que o mundo impõe. Nossos dias estão cada vez mais sobrecarregados de informações e decisões, e a rapidez é o que nos permite navegar esse fluxo sem nos perdermos.

“Se soubermos eliminar a palavra inútil, o fraseado redundante, aquilo que retarda o nosso raciocínio, poderemos dominar a velocidade que a nossa época exige.” (Rapidez)

Rapidez, então, é sobre filtrar o ruído, escolher o que importa e responder de forma eficiente, sem gastar energia à toa.

A exatidão de Calvino reflete o desejo de ser claro, de comunicar com precisão e de buscar a verdade nas palavras e nas ações. Exatidão na vida é sobre saber exatamente o que queremos e expressar isso de forma transparente, sem ambiguidades. Numa era de excessos e distrações, a exatidão é o antídoto para a dispersão, permitindo que nossas intenções e gestos sejam alinhados e tenham impacto.

“Para o próximo milênio, gostaria que a literatura aspirasse a uma linguagem exata como a de um dicionário de geometria.” (Exatidão)

É uma lembrança para sermos precisos em nossa fala e, por consequência, mais conscientes em nossas escolhas. Em vez de exageros ou confusão, busquemos a clareza, tanto no que dizemos quanto no que fazemos.

A visibilidade é o convite de Calvino para ver além do óbvio, para usar a imaginação como uma ferramenta poderosa de criação de realidades. No dia a dia, ela se traduz na habilidade de visualizar caminhos futuros, de imaginar alternativas e soluções, especialmente em momentos de dificuldade. É esse exercício de imaginação que nos permite projetar o que ainda não existe e dar forma ao invisível.

“O poder de evocar imagens com a palavra escrita será ainda mais precioso no futuro, quando a comunicação tende a ser dominada por imagens pré-fabricadas.” (Visibilidade)

No meio de uma cultura visual e imediatista, é essencial resgatar a imaginação, tanto como uma força criativa quanto como uma forma de enxergar novos horizontes.

A multiplicidade de Calvino reflete a complexidade do mundo contemporâneo. Em vez de simplificar ou reduzir as coisas a uma única visão, ele sugere que devemos abraçar a pluralidade de perspectivas e verdades. Isso nos ensina a valorizar o diálogo, a diferença e a riqueza da diversidade, seja em nossas relações, em nossas escolhas profissionais ou em nossa maneira de entender o mundo.

“É preciso multiplicar as histórias, ampliar os pontos de vista e criar redes de significados que se cruzem e se reforcem mutuamente.” (Multiplicidade)

Na prática, significa que não precisamos nos prender a uma única forma de pensar ou viver. Há sempre múltiplas abordagens e caminhos, e a verdadeira sabedoria está em acolher essa pluralidade.

A consistência, embora não desenvolvida por Calvino em vida, é intuída como a capacidade de manter uma coerência interna, tanto na escrita quanto na vida. Isso não quer dizer rigidez, mas sim uma integridade entre o que acreditamos e o que fazemos. Em tempos de tantas mudanças e desafios, ser consistente é manter uma linha de princípios, mesmo quando tudo ao nosso redor parece fluir de forma caótica.

“A literatura deve ter consistência, como uma constelação cujas estrelas estão distantes, mas interligadas.” (Consistência)

Assim, a consistência é como uma bússola que nos mantém fiéis aos nossos valores, enquanto navegamos pelas transformações da vida.

Ao terminar Seis Propostas para o Próximo Milênio, fica evidente que o que Calvino nos oferece vai além de um guia para a literatura: é um conjunto de valores para a vida. Seis valores que acredita serem essenciais para a literatura e, por extensão, para o futuro da humanidade. Em tempos de aceleração constante, ele nos lembra de buscar leveza, clareza, imaginação e pluralidade, sem perder a coerência interna. Cada proposta é uma reflexão sobre a importância de cultivar certos princípios em um mundo cada vez mais rápido, fragmentado e complexo. A obra nos convida a reconsiderar como vemos o tempo, a linguagem, e a própria existência, propondo que leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência podem ser a chave não apenas para a criação literária, mas para um modo mais atento e significativo de estar no mundo.

De tudo, posso dizer que este “guia” tranquiliza, mas também inspira. Ou talvez seja um convite a olhar o presente e o futuro com olhos novos. E, por que não, mais leves.

Dois e meio aqui e acolá

Dois Nairas – moeda nigeriana

 “Two Naira Fifty Kobo” de Caetano Veloso é um brilhante testemunho da capacidade da música de transcender fronteiras e de tecer conexões entre mundos aparentemente distantes. Para compreender a profundidade dessa obra, é preciso mergulhar na complexa teia de relações históricas e culturais que entrelaçam o Brasil e a Nigéria. Estes dois países, separados pelo Atlântico, compartilham um passado que remonta aos tempos sombrios do tráfico transatlântico de escravizados, cujas marcas são indeléveis em ambas as nações. A cultura nigeriana, rica e diversa, foi transportada e enraizada em solo brasileiro, onde floresceu e deu origem a novas expressões de identidade. A canção de Caetano emerge desse caldeirão cultural, propondo um diálogo entre essas heranças e questionando as realidades contemporâneas que continuam a unir Brasil e Nigéria, agora sob a luz da globalização.

Este diálogo é uma extensão do espírito da Tropicália, movimento que Caetano Veloso ajudou a fundar e que, inspirado pela Antropofagia de Oswald de Andrade, buscava devorar as influências externas para transformá-las em algo novo e essencialmente brasileiro. O título da canção, “Two Naira Fifty Kobo”, com sua referência direta à moeda nigeriana, é mais do que um simples símbolo econômico; é um gesto antropofágico, uma apropriação e uma reinterpretação que ressignifica as relações entre esses dois mundos. Caetano, ao escolher essa referência, articula uma ponte simbólica que não apenas une culturas, mas também questiona os fluxos de valor e significado em um mundo cada vez mais interconectado.

A Nigéria, com sua rica tapeçaria de tradições culturais e religiosas, oferece a Caetano um espelho no qual ele reflete as complexidades da identidade brasileira. Assim como Mário de Andrade em “Macunaíma”, que costura as diversas culturas do Brasil para construir uma narrativa nacional, Caetano utiliza a moeda nigeriana como um símbolo que une realidades culturais e econômicas distintas. Essa fusão de elementos ressoa com as reflexões de Edward Said em “Orientalismo”, onde ele explora como as representações culturais moldam as percepções e relações entre diferentes regiões do mundo. “Two Naira Fifty Kobo” não apenas celebra a herança comum entre Brasil e Nigéria, mas também propõe uma crítica à forma como essas identidades são continuamente moldadas pelas forças da modernidade e da globalização.

A referência a Pelé na canção adiciona uma camada de significado que transcende a mera celebração de um ícone nacional. Pelé, admirado mundialmente e também na Nigéria, torna-se um símbolo da capacidade de figuras culturais transcenderem fronteiras e funcionarem como embaixadores de respeito e admiração mútua. Este ícone global reforça a noção de que a cultura pode ser uma força unificadora em um mundo fragmentado, uma ideia que se conecta com a obra de Jorge Amado em “Capitães da Areia”, onde personagens marginais se tornam símbolos de resistência e identidade em uma sociedade marcada pela desigualdade e pela exclusão.

A colaboração musical em “Two Naira Fifty Kobo” reflete uma sinergia entre diferentes tradições e vozes, reunindo músicos como o violoncelista Jaques Morelenbaum, o guitarrista Davi Moraes e renomados percussionistas. Esta fusão de talentos e influências evoca o movimento modernista brasileiro, que buscava integrar elementos locais e internacionais para criar algo inovador e original. Da mesma forma que Tarsila do Amaral combinou formas e cores para expressar uma nova visão do Brasil em suas pinturas, Caetano e seus colaboradores usam a música para mesclar tradições e criar uma obra que é simultaneamente universal e profundamente enraizada em suas origens culturais.

A canção também se insere nas discussões contemporâneas sobre globalização e as complexas interações culturais que ela provoca. Philip Bohlman, em “The Globalization of Music”, argumenta que a música é uma forma poderosa de explorar e negociar identidades culturais em um mundo cada vez mais interligado. “Two Naira Fifty Kobo” exemplifica essa dinâmica, funcionando como uma plataforma para refletir sobre as interações culturais e econômicas que caracterizam a globalização. De maneira similar às obras de Gabriel García Márquez em “Cem Anos de Solidão”, que combinam o local com o universal, a canção de Caetano consegue ser, ao mesmo tempo, uma expressão singular de identidade cultural e uma reflexão sobre questões globais.

Visualmente, o impacto simbólico de “Two Naira Fifty Kobo” pode ser comparado ao trabalho de artistas como Hélio Oticica, criador da obra “Os Parangolés” (é que inaugura e dá nome ao movimento da Tropicália), quando utiliza materiais e referências culturais diversas para criar obras que desafiam as fronteiras entre culturas e mídias. Assim como Oiticica cria imagens que reconstroem e reimaginam a realidade a partir de fragmentos culturais, Caetano usa sua música para transcender as divisões tradicionais entre culturas e criar uma obra que é ao mesmo tempo um comentário social e uma celebração da diversidade. A música, neste contexto, torna-se uma ferramenta poderosa de articulação cultural, oferecendo novas maneiras de pensar e entender as complexidades do mundo moderno.

Por fim, “Two Naira Fifty Kobo” não é apenas uma canção; é uma reflexão sobre as interseções entre identidade, globalização e o papel da arte em um mundo profundamente interconectado. Tal como o conceito de “desterritorialização” de Gilles Deleuze e Félix Guattari, a música sugere que as culturas não estão mais confinadas a lugares fixos, mas se movimentam e se reconfiguram constantemente através das interações globais. A poesia concreta de Caetano, com suas referências culturais e escolhas artísticas, propõe uma nova forma de pensar as identidades culturais em um mundo onde as fronteiras são cada vez mais permeáveis e as trocas culturais são inevitáveis. “Two Naira Fifty Kobo” se posiciona não apenas como uma obra musical, mas como uma intervenção poética e crítica no debate sobre as relações culturais no século XXI.

Ao tecer essa complexa tapeçaria musical e cultural, Caetano Veloso nos lembra das raízes profundas que ligam Brasil e Nigéria, como bem expressa o poeta baiano José Carlos Limeira em “Entre o Atlântico e o Leme”: “Sou parte desse rio profundo que leva e traz, sou da parte que ficou, mas carrego em mim o outro lado do mar”. Com essa imagem poética, Limeira captura a dualidade e a continuidade da identidade afro-brasileira, onde o Atlântico não é apenas uma barreira, mas uma ponte que conecta histórias, dores e resistências.

 “Two Naira Fifty Kobo” é como esse rio profundo. Nos convida a navegar por essas águas entrelaçadas, reconhecendo que o que somos hoje é uma fusão indissolúvel dessas correntes culturais que atravessam oceanos e séculos. 

E como nascem os rios, parecem quase nada quando brotam até encontrar o todo no mar do nosso coração.

Janelas Abertas na Casa de Vidro

Autonomia, aprisionamento e Byung Chul-Han


Há alguns anos, um amigo me ligou e, durante a conversa, me disse: “E aí que eu acho que tive burnout”. Por associação do termo, eu compreendi do que se tratava, mas não tinha noção da magnitude deste problema. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) realizou uma pesquisa que revelou um dado alarmante. O burnout, ou esgotamento profissional, tornou-se um problema global, afetando milhões de pessoas ao redor do mundo. Médicos, professores, profissionais de tecnologia e muitos outros estão sofrendo com níveis extremos de estresse, chegando a um estado de exaustão física e emocional. A situação tornou-se tão crítica que a OMS reconheceu oficialmente o burnout como um problema de saúde ocupacional, evidenciando a necessidade urgente de abordarmos essa questão.

Esse esgotamento não é um caso isolado; é um sintoma de uma sociedade que valoriza excessivamente a produtividade. Vivemos em uma era onde a busca incessante por resultados se transformou em uma nova forma de escravidão. Acreditamos ser livres e donos de nosso próprio destino, mas, na realidade, estamos nos explorando. Cada um de nós se tornou uma pequena fábrica, sendo simultaneamente patrão e funcionário, numa lógica implacável de autoexploração. Essa batalha interna, onde somos ao mesmo tempo mestres e escravos, revela a brutal eficiência dessa nova forma de controle.

Atualmente, a pressão não vem de fora, mas de dentro. A autoexploração, disfarçada de autonomia, não tem limites. Transformamos nossas vidas em projetos intermináveis, sempre buscando mais e mais desempenho. Isso leva ao esgotamento e à depressão, revelando a verdadeira face dessa falsa liberdade. Se pararmos para refletir sobre essa dinâmica, talvez possamos questionar os valores que nos guiam e buscar formas mais saudáveis de viver.

Era final de 2020 quando me esbarrei num podcast sobre filosofia ( e que amargo imensamente o facto de não lembrar o nome) cujo um dos seus episódios era sobre o filósofo Byung-Chul Han. Achei muito instigante o pensamento que tratava de dinámicas tão contemporâneas extremamente coerente com sensações e experiências muito próprias de mim. O tempo passou e depois de noites e vinhos de conversas extensas, após um professor trazer este tema em aula, dei a Luana “A Sociedade do Cansaço” como presente de aniversário. É surpreendente a capacidade de Han em absorver componentes tão sensíveis e paradigmáticos que a sociedade tecno-mercantizada, optimo-capitalizada produz e enfrenta. Em seu livro, Han oferece uma análise crítica dessa questão. Ele afirma que, na sociedade do desempenho, a pressão externa foi substituída pela autoexploração, que se disfarça de liberdade. Essa nova forma de exploração é mais eficiente e brutal porque emana de dentro de nós. A sensação de liberdade que acompanha a autoexploração nos engana, fazendo-nos acreditar que estamos no controle, quando, na verdade, estamos aprisionados por nossas próprias exigências e expectativas.

Transformar cada indivíduo em seu próprio chefe cria uma pressão interna constante. Em busca de auto-optimização e desempenho máximo, frequentemente sacrificamos nosso bem-estar emocional e físico. A promessa de sucesso e realização pessoal torna-se uma prisão, onde o fracasso e o esgotamento são inevitáveis. A autoexploração é ilimitada porque é autoimposta, levando-nos a um ciclo interminável de trabalho e produtividade que drena nossos recursos internos.

Nesse cenário frenético, o desempenho e a produtividade ressoam como as notas incessantes de um frevo, sempre rápidas e exigentes. Michel Foucault, em suas análises sobre poder e controle, nos mostrou como as sociedades disciplinares se valiam de proibições e repressões claras. Na sociedade do desempenho de Byung-Chul Han, porém, o controle se torna mais sutil, quase como um samba-canção melancólico. A pressão para sempre estar produzindo e se superando cria um estado de vigilância interna que nos leva a explorar nossas capacidades até o limite, como personagens presos em uma distopia orwelliana.

Esse constante estado de autoexigência leva ao cansaço crônico, algo que virou símbolo dos nossos tempos. Diferente das doenças infecciosas do passado, o cansaço crônico é um sintoma da sociedade moderna, como as personagens de Clarice Lispector, sempre buscando um sentido profundo e nunca encontrando paz. Zygmunt Bauman, em suas análises da modernidade líquida, explica como a fluidez e a incerteza da vida moderna contribuem para essa sensação de esgotamento contínuo. Estamos sempre em movimento, sem pausas adequadas para recarregar nossas energias, como andarilhos em busca de algo indefinido.

As consequências desse estilo de vida aparecem em novas formas de psicopatologias, como depressão, TDAH, transtorno bipolar e burnout. Karl Marx já falava sobre a alienação no trabalho, mas hoje vemos essa alienação se espalhando por todas as áreas da vida, como na música “Construção” de Chico Buarque, onde a repetição e a falta de significado levam à queda inevitável. A pressão constante para performar e a falta de sentido profundo nas nossas atividades diárias resultam em um mal-estar psicológico generalizado.

Ao comparar a sociedade disciplinar de Foucault, baseada na negatividade, com a sociedade do desempenho de Han, a mudança torna-se grande. Foucault descreveu uma sociedade onde o poder se manifestava através de proibições e repressões, criando limites claros. Na sociedade do desempenho, o poder é positivo, incentivando a autossuperação e o desempenho contínuo, como as figuras etéreas de um quadro de Salvador Dalí, sempre em movimento, sempre tentando alcançar algo inalcançável. Esse incentivo à positividade, que parece ótimo à primeira vista, na verdade, exacerba a autoexploração e o esgotamento.

Nós nos tornamos nossos próprios exploradores, buscando constantemente maximizar nossas capacidades. Karl Marx falou da exploração do trabalhador pelo capitalista, mas na sociedade do desempenho, a exploração é internalizada. Como personagens de “Dom Casmurro” de Machado de Assis, sempre duvidando de nós mesmos e nos pressionando incessantemente para atingir metas cada vez mais altas, o que leva a um ciclo vicioso de autoexigência e esgotamento.

Essa autoexploração gera uma falsa sensação de liberdade. Pensamos que somos livres para escolher nosso caminho e nosso ritmo, mas, na verdade, a coerção é internalizada. Michel Foucault já havia mostrado como o poder pode ser internalizado pelas pessoas, mas na sociedade do desempenho, essa coerção vem de dentro, criando uma prisão invisível onde somos nossos próprios guardiões, como em “Cálice” de Gil e Chico, onde o silêncio imposto é autoimposto.

O autocontrole e a vigilância constante do próprio desempenho substituíram a vigilância externa das sociedades disciplinares. Foucault descreveu como a vigilância era um meio de controle social, mas hoje, a necessidade de estar sempre monitorando nosso próprio desempenho se tornou o novo mecanismo de controle. Estamos sempre atentos a nós mesmos, avaliando constantemente nosso valor com base em nossa produtividade, como as figuras vigilantes em “Guernica” de Picasso, sempre em alerta.

A competição incessante é uma característica central da sociedade do desempenho. Zygmunt Bauman explicou como a modernidade líquida contribui para a sensação de competição contínua. Estamos sempre comparando nossos resultados com os dos outros, o que leva a um sentimento de inadequação e alienação. Essa competição constante esgota nossos recursos mentais e emocionais, contribuindo para o cansaço crônico e a depressão, como em “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa, onde a luta contínua leva ao cansaço da alma.

A sensação de atemporalidade e desorientação é uma consequência direta da falta de pausas naturais na nossa vida. Sem ritmos estáveis para nos guiar, perdemos a noção do tempo e nos sentimos constantemente desorientados, como personagens de Kafka, perdidas em suas próprias existências. Zygmunt Bauman descreve como a modernidade líquida cria essa sensação de fluidez e incerteza, que nos deixa sem um ponto de referência claro. A percepção do tempo é alterada. Estamos sempre correndo contra o tempo, tentando fazer mais em menos tempo, o que contribui para a sensação de cansaço e esgotamento, como nas pinturas de Escher, onde os caminhos se entrelaçam infinitamente.

A sociedade do desempenho, como descrita por Byung-Chul Han, cria um ambiente onde o cansaço crônico, as novas psicopatologias e a autoexploração são predominantes. Diante disto, é como se Foucault, Marx e Bauman desses as mãos para nos ajudar a entender as raízes e as consequências dessa realidade. Talvez seja hora de repensarmos nossa relação com o trabalho, o desempenho e o tempo para recuperar um senso de equilíbrio e bem-estar em nossas vidas.

À face desse cansaço, lembro das palavras de Drummond, que nos convidam a enfrentar o desconhecido com coragem e lucidez. Refletir sobre o futuro nos permite vislumbrar possibilidades de transformação e renovação, mesmo em meio às adversidades da sociedade do desempenho.

A vida segue seu curso, e é nossa responsabilidade encontrar um equilíbrio entre a busca incessante por realizações e a preservação de nossa saúde mental e espiritual. Assim como nos versos de Cecília Meireles, encontramos na simplicidade dos momentos uma fonte de serenidade e inspiração para enfrentar os desafios que estão por vir. Que o futuro nos reserve não apenas conquistas materiais, mas também um sentido profundo de harmonia e bem-estar, onde a verdadeira realização resida na capacidade de viver plenamente, em paz conosco mesmos e com o mundo ao nosso redor.

Ou não.

Hic Et Nunc

Como se não bastassem os livros que despertam o meu impulso incontrolável de tê-los, e que se unem a outros na lista dos que ainda não li, vou baixando um e-book aqui e outro ali, quando os assuntos tocam algum lugar de algum pensamento ou sentimento que esteja de mãos dadas comigo no momento.

Outro dia, lendo História e Utopia, do filósofo romeno Emil Cioran, fiquei espantado com a atualidade das suas reflexões, sobretudo do que diz respeito aos rumos da sociedade. 

A partir disto me pus a ponderar sobre inquietações que há algum tempo vêm remoendo a minha alma de ator, que reflete o tempo, e de artista, que concebe e fabrica outros novos.

Pois bem, muitos povos antigos, nas suas mitologias, imaginam o mundo inicial quase perfeito, em que os primeiros seres humanos viviam na mais perfeita felicidade. Gregos, egípcios, hindus, maias, astecas, celtas, mulçumanos, judeus e cristãos compartilham essa mesma ideia de plenitude originária que a humanidade acabou perdendo.

Desde a idade do ouro, passando pela idade da prata, do bronze, até chegar a idade do ferro, os autores antigos sempre relacionaram o caminho do desenvolvimento à perda da abundância eterna, atravessando pela chegadas das doenças e, enfim, ao advento do trabalho e à tragédia da escravidão. O avançar do tempo que nos abandonou a felicidade e nos entregou à imperfeição.

Nestes, o caminho que a humanidade percorre, ora de um jeito, ora de outro, duas dinâmicas surgem: uma, o mar seguro do pensamento conservador e outro, o agitado do pensamento revolucionário. O primeiro, para o qual o passado sempre será melhor que presente; e o segundo, para o qual o hoje nunca será melhor que o amanhã. 

Para Cioran, a segunda, embora seja mais poliana e talvez platónica, sem dúvidas é mais generosa. Se obter o que se deseja é, no fundo, a Felicidade, saber que ela está na frente, na luz do fim do túnel, é melhor do que viver lastimando o sentimento de que cheguei tarde demais para o banquete.

Entre um caminho e outro, vou me equilibrando entre o valor da tradição, em seu grau mais telúrico, e a necessidade do progresso. A urgência do progresso. Consciente, sustentável e o mais social possível. Fugindo de ilusões – tentando – , apesar das catástrofes atuais e de outras que sei que ainda estão por vir, me esforço para saborear o meu presente. Sobretudo o meu presente enquanto sei que ele existe. Tento fotografar na minha memória momentos especiais e experiências vividas para que as sensações passadas sejam de alguma forma ingredientes de um novo banquete. Baiano como sou, gosto de viver a mística das religiões que enaltecem a fé através da crença na possibilidade. Não à toa foi no Brasil que aportou o Rafael de Thomas More e fez o autor cunhar a Utopia para sempre na gramática da espécie humana.

Enquanto isso eu me contento com coisas simples: a bênção dos meus mais velhos, o olhar congelante da minha filha, o coração da minha eterna namorada, a mão forte dos amigos especiais, uma cerveja gelada e Gal Costa cantando Baby baixinho na caixa de som…

Outro dia, outras sensações correm e chegam pra invadir o meu corpo. Eu me entrego, inteiro, vivendo aqui e agora. 

* Imagem: iconografia de Quetzalcoatl – divindade da mitologia azteca representada pela serpente emplumada que simboliza a dualidade do pensamento e do conhecimento humano.

Sem samba não dá

Samba – DiCavalcanti

         Mesmo me considerando ser um artista intimamente ligado às minhas raízes culturais, à fortuna histórico-social que alimenta a pluralidade tropical ( esta que, de alguma maneira, dá forma à paisagem humana e cultural brasileira, sobretudo ao legado de alguns movimentos que ajudaram a forjar a tradição moderna da cultura musical da Bahia – como o movimento antropofágico, a semana de arte moderna, a bossa nova, a tropicália, e até o axé music), nunca me permiti o prazer de ler Verdade Tropical, escrito por Caetano Veloso[1]. O encontro me veio há algumas semanas. Para a minha vaidosa surpresa, encontrei nas palavras de Caetano legitimidade na confirmação das minhas considerações que fiz num ensaio que escrevi há alguns anos. O texto aludia sobre a música brasileira, sobre o samba como símbolo de um reconhecimento coletivo na construção de uma identidade político-social contemporânea.        

         Apesar do pormenor de algum preciosismo em forma de nota de rodapé, ou mesmo da presença de algumas citações, adianto-me em advertir o leitor de que este texto foge à estirpe acadêmica. Tento apenas misturar algumas observações minhas somadas a considerações feitas a partir de uma pesquisa curiosa, de memórias e de algumas experiências próprias.  Eis que o ensaio se segue a partir do próximo parágrafo. Boa leitura!

Parece mesmo que um tipo diferente de mudança estrutural tem transformado as sociedades modernas. De tudo que se vê, se lê, se bebe e se come no ambiente contemporâneo, é possível acreditar que sim.  As noções de identidade de siidentidade cultural e em seguida identidade nacional foram os primeiros reféns de movimentos que modificaram drasticamente as relações sociais e o entendimento do indivíduo enquanto sujeito. A ruína de velhas identidades, responsáveis por estabilizar durante muito tempo o mundo social, faz surgir novas identidades e fragmenta o indivíduo moderno, visto como um indivíduo unificado até há pouco. Esta transformação estrutural modifica substancialmente os terrenos estáveis de identificação, participação e representação do sujeito na contemporaneidade.

Stuart Hall[2], referência nos assuntos que envolvem os estudos culturais, no livro A identidade cultural na pós-modernidade, aponta a sua perspectiva especificamente para a fragmentação das paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça, e nacionalidade, que no passado forneram as bases sólidas localizações como indivíduos sociais. Segundo o teórico, estas transformações estão também a mudar as identidades pessoais e reorientam as ideias que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Seu testemunho afirma que 

“esta perda de um “sentido de si” estável, é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento – dos indivíduos em seu lugar no mundo social/cultural e de si mesmos – constitui uma “crise de identidade” para o indivíduo.” (Hall, 2015)

Para sustentar este pensamento, Hall apresenta as concepções de identidade apresentadas por tipos diferentes de sujeito, sendo eles: o sujeito do Iluminismo (indivíduo centrado, unificado; dotado de capacidades da razão, de consciência e ação que o acompanha desde o seu nascimento até a morte.  – concepção individualista), o sujeito sociológico (a qual a identidade é formada na interação eu/sociedade ou interior/exterior ou pessoal/público – o “eu” do sujeito formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais “exteriores” e as identidades que estes mundos oferecem) e o sujeito pós-moderno(identidade fragmentada; composto por várias identidades, contraditórias ou não resolvidas.). 

Segundo a sua perspectiva, a ausência de uma identidade fixa, essencial ou permanente do indivíduo pós-moderno é resultado direto da alteração do processo de identificação, o qual torna-se mais provisório, variável e problemático. Portanto, a identidade torna-se uma celebração móvel: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam.[3]

As “velhas identidades”, aquelas as quais o indivíduo projeta a “si mesmo” nas identidades culturais ao mesmo tempo que internaliza seus significados e valores tornando-os “parte de si, formalizaram durante muito tempo as condições que compreendem a noção de Identidade Cultural. São justamente os aspectos que constituíam a ideia de “pertencimento” a culturas étnicas, raciais, linguísticas, religiosas e, acima de tudo, nacionais, que são confrontados e transformados a partir do advento dos novos meios de relação e percepção do mundo. 

A reboque desta ideia, a noção de culturas nacionais constitui uma das principais fontes de identidade cultural. Além de uma tradução metafórica – de quando se diz “sou português” ou “sou brasileiro” – que pressupõe uma natureza essencial do cidadão de um povo-nação, o entendimento de identidade cultural nacional é formado no interior da representação. Ou seja, o conjunto de signos representados através de um sistema de representação cultural é o que constitui a ideia de nação tal como é representada em sua cultura nacional. 

Para Ernest Renan[4], filósofo francês, três coisas constituem o princípio espiritual da unidade de uma nação – daquilo que constitui uma cultura nacional como uma “comunidade imaginada”: as memórias do passado, através da posse comum de um rico legado de memórias; o desejo por viver em conjunto e a perpetuação de uma herança pela vontade de perpetuar, de uma forma indivisível, a herança que se recebeu.

Sob a reflexão das novas noções de sujeito, e as consequências de sua contemporânea mutação, pode-se observar que as identidades modernas estão a ser “descentradas”, isto é, deslocadas ou fragmentadas invariavelmente diante das novas concepções de mundo e sociedade. As identidades que estabilizaram a relação sujeitos-mundos culturais, tornando ambos reciprocamente unificados e predizíveis, são colocadas em xeque quando se observa com mais agudez as tendências e tessituras da musica brasileira. 

Até a década de 1970, a noção de autenticidade, se baseava em uma vinculação à pureza segundo a qual as interculturalidades e a tecnologia deviam ser afastadas. Contudo, um outro elemento visto como antípoda do autêntico, entra em cena com valor positivo e passa a figurar no campo simbólico da autenticidade: o hibridismo. Para Homi K. Bhabha[5], o hibrído está no mesmo domínio da ideia de defférance, como formulada por Derrida. Isto significa dizer que no híbrido as negociações ocorrem em uma esfera simbólica, na qual os signos jogam livremente e nunca encontram sua formação inicial. Para ele, é sempre um processo inserido de em uma arena de negociações que significa necessariamente resistência e novidade. [6]

Exemplo de hibridismo cultural e combinação harmoniosa de múltiplas referências culturais, a música brasileira é a soma de modelos musicas mundiais, de raças e etnias distintas, mescladas e combinadas sem distinção de valor ou subjugação de poder. É fusão, mescla e combinação.

Desde a apresentação de Gilberto Gil no Festival Montreaux, em 1978, esse evento anual que congrega os mais diversos e ecléticos músicos de jazz do mundo, o acontecimento converteu-se no principal palco de difusão da MPB na Europa.  Elis Regina, foi mais além e inaugurou as bem-sucedidas “Noites Brasileiras” no mesmo festival e a partir daí outros festivais passaram a realizar shows dedicados exclusivamente à musica brasileira como em Nova York, Alemanha, Itália, Bélgica, Eslovênia, Holanda e Japão.

De facto, a musica brasileira, enquanto manifestação simbólica, representa a potência de uma instituição cultural, das mais fortes no país e reconhecida no mundo. Entre os diversos ritmos genuínos brasileiros, o samba é nomeadamente um símbolo histórico-cultural, gerado na escuridão das senzalas, articulador e transformador da “identidade brasileira”.

Por muitos anos da história do Brasil, o termo “batuque” era a denominação comum a qualquer manifestação que reunisse canto, dança e uso de instrumentos de ancestralidade africana , por extensão designando festejos. Esse sentido amplo evoluiu para uma designação racista na literatura colonial até o início do século XX, quando a palavra “samba” passou a suplantar “batuque”.

Alguns estudos apontam para a teoria de que o termo samba foi uma corruptela de semba (umbigada), palavra de origem africana, possivelmente oriunda de Angola ou Congo, de onde partiram a maior parte dos escravos para o Brasil.

Neste caminho, uma pergunta vem à tona: Por que não há batucada em outros países como no Brasil, Caribe e África? Sobretudo nos EUA? E mais, por que a música dos negros norte-americanos é tão diferente do demais países que tiveram influência do regime escravagista, em sua maioria africano?

Estudos apontam para uma hipótese considerável. Em 1739, na Carolina do Sul, um grupo de escravos iniciou uma marcha a gritar por liberdade, liderados por um escravo angolano, considerada a primeira revolta de escravos nos EUA. Conta-se que cerca de vinte e cinco brancos foram assassinados no total. Os rebeldes acabaram mortos nos confrontos com os brancos, outros foram recapturados e executados nos meses seguintes. Como reacção, o governo da Carolina do Sul baixou o “Ato Negro” (Negro Act) em 1740, trazendo uma série de proibições. Como os brancos suspeitavam que os tambores fossem utilizados como uma forma de comunicação pelos negros, foram sumariamente vetados, a tornar proibido bater tambores, soprar cornetas ou qualquer instrumento que causasse “barulho”.

Se nos puséssemos a pensar nos grandes nomes da música afro-americana vamos reparar na abrangência dos instrumentos melódicos e na filiação direta à música clássica, sobretudo europeia. Charlie “Bird” Parker tocava sax, Louis Armstrong tocava trompete, Nina Simone tocava piano, assim como Stevie Wonder e Ray Charles. Miles Davis tocava trompete, Wynton Marsalis, idem. Robert Johnson e Chuck Berry tocavam guitarra, enquanto Leadbelly tocava um violão de 12 cordas.

Alguns estudiosos atribuem ao banimento dos tambores o fato da música dos EUA em geral não ser tão rica em compassos como a sul-americana ou a caribenha. Existe ainda um fator peculiar em quase toda a música norte-americana, uma extensa ênfase em um mesmo ritmo, demasiado diferente da encontrada em qualquer outro lugar no mundo. O ritmo formado pelo compasso Toom – Pap – Toom – Pap, com um bumbo na primeira e terceira batidas, ou em todas as quatro e uma caixa precisamente na segunda e quarta, e quase nada entre elas, é chamado de ‘duple’ ou compasso binário, em teoria musical.  É possível encontrar variações dele em todos os estilos da música americana popular moderna como o Blues, Motown, Soul, Funk, Rock, Disco, Hip Hop, House e a musica Pop.

O predomínio generalizado deste monorritmo simplificado, rígido e mecânico, que abre mão de elementos polirrítmicos na música para o mero papel de embelezamento, às vezes ao ponto de não-existência, é muito diferente do foco em polirritmos complexos que existe em várias formas da música moderna sul-americana e caribenha como o Son Cubano, a Rumba, a Bossa Nova brasileira, o Gwo Ka e Compas haitiano, o Calipso de Trindade e Tobago entre outros exemplos.  Nenhum deles depende tão extensivamente do duple.

Nesse sentido, para além do samba (e da bossa-nova), outras manifestações que investiram na mescla de ritmos promoveram condições para o surgimento de novos ritmos, formas e sons, ao passo que contribuíam substancialmente na formação da identidade musical brasileira,  As gravações de Cobra Criada, cantada por Elis Regina, The Archaic Lonely Stars Blues, por Gal Costa, Mistério do Planeta, Novos Baianos e Eleanor Rigby e Billie Jean, ambas de Caetano Veloso são alguns dos diversos exemplos da rica combinação rítmica que a vitoriosa sobrevivente miscigenação brasileira asseguradamente produziu.

O samba brasileiro, tido aqui como objeto de reflexão acerca das características de uma identidade cultural na pós-modernidade, é um convite a observação atenta dos movimentos sociais que envolvem as dinâmicas de Tradição e Inovação. Um par que se apresenta como um projeto aparentemente incompatível e inconciliável expõe talvez um dos paradigmas mais insolúveis da contemporaneidade. Em que medida a crise de identidade, a qual o mundo pós-moderno parece confrontar-se, altera as dinâmicas de preservação e transformação, ou conservação e novidade, é um questionamento que vem à tona.

Alguns fatores estruturais foram responsáveis por uma inevitável alteração da compreensão do que pode se definir como identidade. O advento da globalização, o declínio de tendências fundamentalistas e o hibridismo das manifestações artísticas capitanearam novos conceitos de representação cultural e identificação do indivíduo. A empresa que visa o resgate a uma certa “identidade”, pode ter a desvantagem de revestir-se sob um traço idealista, remetendo, inapelavelmente, à velha questão da especificidade de uma manifestação “pura”. Olhada por esse ângulo, esta noção estaria condenada a permanecer não apenas abstrata e metafísica, mas inoperante, tendo algo de mítico, excessivamente genérico, e até mesmo idealista e etnocêntrico.

A questão apontada mira sobre os movimentos que se deparam com a ideia da “perda de si” e que podem impelir tendências de soluções abruptas à necessidade de resposta a uma possível saída para a tal crise – esta correspondente ao sujeito sociológico,  que por sua vez sustenta as bases do que pode se compreender como identidade cultural nacional tradicional. Esta propensão pode contribuir para a construção de guaritas separatistas e malogradas. Deleuze, quando analisa o poder dionisíaco sobre o Minotauro em O Mistério de Ariana reporta-se à análise de Nietzche, e traz à luz uma rica observação sobre as atitudes de afirmação

“a vontade de poder tem duas tonalidades: a afirmação e a negação; as forças tem duas qualidades: a ação e a reação. Aquilo que o homem superior apresenta como afirmação …. não deixa de ser por isso apenas a combinação extrema da negação com a reação, da vontade reativa, do niilismo com a má consciência e o ressentimento.”

Néstor-Garcia Canclini[7], atualiza esta discussão; para ele, o processo de hibridização é a combinação invariável na qual estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, geram novas estruturas, objetos e práticas. Esta definição parece, a priori, somar-se como mais uma de tantas outras, porém, uma observação específica torna sua análise especialmente cara: as tais “práticas discretas” não são originalmente formas puras. Estas não existem, pois, todos os processos culturais ocorrem por força de hibridização. 

Se por um lado as discussões acerca das noções de identidade concorrem com muitas opiniões, por outro as observações quanto aos novos movimentos e dinâmicas de hibridização cultural parecem apontar para o mesmo sentido. As identidades nunca se fecham nem se fixam. O processo de hibridização confirma-se como movimento natural de combinação que rejeita a síntese, segundo a qual a tomada da cultura metropolitana por aquela colonizada resultaria em uma terceira cultura. Ao contrário, a cultura do terceiro espaço[8] não se torna um particular; é sempre um processo inserido num processo de transformação. Este espaço assume-se, portanto, como uma estratégia de resistência contra o domínio cultural, a criar um cultural novo, um que nunca se estabiliza.


[1] Verdade Tropical (2008), escrito por Caetano Veloso é uma espécie de autobiografia mesclada por uma descrição poética a respeito da sua criação somada a uma reflexão afetiva sobre temas que movimentaram a sociedade e a cultura das décadas de 60 e 70.

[2] Teórico cultural e sociólogo jamaicano, reconhecido por expandir o escopo dos estudos culturais para integrar os conceitos de raça e gênero. Juntamente com Richard Hoggart e Raymond Williams, foi uma das figuras fundadoras da escola de pensamento que hoje é conhecida a escola Birmingham dos Estudos Culturais. 

[3] Stuart Hall, A identidade cultural na pós-modernidade, p. 11.

[4] Filósofo e historiador francês que influenciou os principais pensadores dos finais do século XIX. O seu livro O que é uma nação tornou-se referencia obrigatória nos estudos sobre o nacionalismo.

[5] Teórico crítico indiano, diretor do Centro de Humanidades Mahindra na Universidade de Harvard, é umas das figuras mais importantes no estudos pós-coloniais contemporâneos.

[6] Homi K. Bhabha, O local da cultura, p. 71

[7] Antropólogo argentino contemporâneo, considerado um dos mais importantes investigadores em comunicação, estudos culturais e sociologia na pós-modernidade. Uma de suas obras, Culturas Híbridas, recebeu o prêmio Book Award, concedido pelo Latin American Studies Association, eleito o livro do ano em 2002 sobre a América Latina.

[8] Expressão utilizada por Bhabha para definir a compreensão de um espaço suspenso entre duas culturas (“in-between”); uma arena de negociação de significados tanto quanto processo de hibridismo cultural.

Um espetáculo que comenta

Tratar da contemporaneidade poderia certamente denotar um projeto pretensioso, alimentado pela ambição de ponderar sobre as dinâmicas de um tempo que ainda não terminou. O risco de suscitar uma historicidade presunçosa, visto que ainda não confirmada, pode acarretar no esfacelamento e até perda de autoridade sobre a reflexão do tema. Entretanto, Agamben isenta-nos deste risco quando afirma que a instância da contemporaneidade existe na “…singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias…” Na sequência deste pensamento, Agamben convoca as palavras de Nietzsche para alegar que a intempestividade é qualidade ao mesmo tempo necessária à e proveniente da atitude contemporânea, pois age como dispositivo capaz de relacionar o indivíduo em regimes de dissociação e desconexão com o seu próprio tempo.[1] Em outras palavras, para o autor, é através do intempestivo deslocamento analítico em relação ao seu tempo que o filósofo pode melhor compreendê-lo.

Ainda para o pensador italiano, o fenómeno da contemporaneidade “(…) se inscreve no presente marcando-o sobretudo como arcaico, e só quem percebe no mais moderno e recente os indícios e as signaturas do arcaico pode ser seu contemporâneo.”, e com isto anuncia a concepção de arcaico como sendo qualidade ligada à noção de “arché”, ou seja, da origem. Por fim, o pensador nos convida a atentar para a compreensão de que a esta origem não está relacionado lugar referente ao passado cronológico, mas que, por sua vez, a tal contemporaneidade estaria diretamente ligada ao devir histórico sem parar de funcionar sobre nele.

         Neste sentido, parece ser impossível evitar que reflexionemos sobre a quê ou a quem nos referimos quando assumimos a qualidade do per se contemporâneo nesta reflexão. 

         Lembro bem quando, ainda no curso de Comunicação, um professor de Mídias Digitais abriu a aula a dizer “Bem-vindos à era da comunicação bilateral!”. 

         A saudação que inaugurava o novo ciclo do tema na matéria fazia jus à sequência de plataformas digitais que pululavam nos laboratórios de tecnologia e linguagem de programação e prometiam revolucionar os meios de comunicação e o comportamento social. Ainda incipiente, o novo modelo de sistemas não somente aprimorava as vias de acesso entre o emissor-receptor de uma mensagem[2] como (enfim) proporcionavam a tão sonhada interatividade deste com os veículos de comunicação. Em outras palavras, a internet, sob forma de outra matriz (a tela do computador e dos recém-chegados smartphones), nem sonhava ainda com a profunda revolução no modelo de produção de conteúdo midiático que viria a provocar, e já celebrava um feito que por muitas décadas a sociedade aspirava: o contacto da resposta direta e imediata do interlocutor (ou destinatário) com o seu emissor (ou destinador).

         Neste dia, e nos demais que se seguiram ao tema, era evidente a atenção especial a qual o assunto exigia: sem dúvida, menos a capacidade revolucionária da internet em criar uma nova mídia (e consequentemente uma nova prática de mercado e consumo) e mais sobre a capacidade de abertura do canal de comunicação de um indivíduo para com o seu interlocutor  a partir da mensagem que este recebeu. Por vezes brindamos o advento de um modelo de comunicação, dentro do mass media, que permitia uma pronta resposta do receptor- emisso/consumidor, sem mediações e que já prometia capacidade de ampliação. 

         Qualquer um poderia “dizer” à empresa, ao jornal, ao programa, ao mundo o que pensava a respeito do que quisesse. Não somente reclamações, dúvidas, sugestões, mas agora um contacto efetivo, uma participação registrada e assistida ou qualquer outra intervenção. E claro, toda e qualquer relação comercial entrava no bojo dessa nova relação, inevitavelmente. 

         Basicamente era como se houvesse acabado o tempo em que se enviava cartinha para a produção do um programa “x” de rádio ou TV (impossível esquecer a imagem dos apresentadores mergulhados no mar de cartas a jogar pra cima), ou a era em que aos clientes bastavam os “serviços de atendimento ao consumidor”, quase sempre em sua maioria via telefone. Como se houvesse findada a era do conteúdo pensado unicamente por quem emite a mensagem. A “rede” já era revolucionária antes mesmo de ser. Para além de ampliar a democracia na comunicação com a chegada de novos canais e novas ofertas de conteúdo, a internet e especialmente as redes sociais abriam caminho na para a voz do outro. Um novo modelo que avançava na vanguarda da atitude que contemplava (com efeito!) a perspectiva da receção do leitor, do usuário, do telespectador e agora do internauta.

         Por certo que esta reflexão nasce de uma observação pessoal e única deste que escreve e discorre sobre o tema em questão. Contudo, se preciso fosse estabelecer um parâmetro de análise deste fenômeno a fim de, audaciosamente, ultrapassarmo-nos o impressionismo próprio da perspectiva subjetiva, seria oportuno trazer à colaboração outras disciplinas sofisticas e já bem estabelecidas que tangenciam o tema como o Teatro e a Sociologia. Mesmo de maneira tênue, traçar alguns paralelos contribuem para pensarmos melhor. Se considerarmo-nos o Teatro, sobretudo às questões ligadas à análise teatral, ou seja, o modelo de estudo dos códigos, signos e vetores teatrais, podemos traçar um paralelo entre o par emissor-receptor com a relação entre espetáculo e espectador. Entretanto, é preciso atentar para os riscos semiológicos que tal tarefa pode apresentar.

         Na mesma ordem das ideias, e a partir do que já pontuamos sobre os primeiros, Patrice Pavis (2015), ao tratar das discussões provenientes das novas formas do teatro contemporâneo e da necessidade de novas teorias que contemplem as instâncias produtoras e receptoras, advoga a favor de um pensamento que instaure novas estratégias de análise teatral. Para o teatrólogo, à contemporaneidade não cabe mais a polaridade objetividade-subjetividade – risco que ainda se corre no afã de contemplarmo-nos o olhar do espectador-usuário-receptor. Para o teórico, concentrar um pensamento unicamente na subjetividade é uma consideração inútil e ineficaz. 

Claro, é mesmo o sujeito que analisa e avalia, mas dizer qye a análise é subjetiva é não apenas uma banalidade, mas pressupõe que haveria uma objetividade sobre a qual se poderia finalmente entrar em acordo (Patrice Pavis).

De outro modo, a fim de evoluir com a análise da relação entre as redes sociais e os usuários, e adoptando-as aqui enquanto “espectáculo”, convém aplicar um pensamento que encare a recepção tanto quanto a produção. Convém atentar para as tensões que as duas instâncias produzem uma sobre a outra, e não incorrer na tentação ingênua de observar o fenómeno unicamente sob a perspectiva do “espectador”.

         Voltando às aulas de Comunicação, durante os anos seguintes ao curso assistimos a reformulação do mass media sob o cargo impreterível da internet e, consequentemente, a relação íntima em que a sociedade passou a estabelecer com este canal. Assistimos a “Matrix”[3] ser criada e construída, agora, pelas mãos do próprio indivíduo que a utiliza e a consome. Neste contexto, as redes sociais surgem como dispositivo quase perfeito para balizar esta relação. Quase. Elas apresentam o indivíduo ao mundo do espetáculo e a aproxima esse espetáculo à noção de vida deste indivíduo.

Guy Debord, em A sociedade do espetáculo (1967), livro-bíblia da extrema-ala do Maio de 68, farejava o que certamente seria umas das maiores singularidades da sociedade moderna: a simbiótica relação homem x espetáculo de existência. Para Debord, o espetáculo não correspondia à um conjunto de imagens, mas sobretudo à uma relação social entre pessoas, mediada por imagens e ressaltava que

“ O espetáculo apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz senão que “o que aparece é bom, o que é bom aparece”. A atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência…” (Guy Debord)

E ainda, 

(…)a realidade vivida é materialmente invadida pela contemplação do espetáculo, e retoma em si própria a ordem espetacular dando-lhe uma adesão positiva” …. “No mundo realmente reinvertido, o verdadeiro é um momento do falso…”

         O termo “sociedade do espetáculo” parecia estar quase sempre relacionada à Televisão até a chegada da internet e das redes sociais. Como se a valsa que embalava o espetáculo agora tivesse um novo partner. Não à toa, os dois países que possuem a maior quantidade de usuários do Facebook no mundo são aqueles cuja fortuna da sociedade do espetáculo mais perdurou: EUA e Brasil. 

         Muito particularmente, relaciono esse aspecto à muitas especificidades da condução política atual, e nesse sentido me atenho mais à perspectiva do pensamento político que a uma representação partidária específica – haja vista os incontáveis exemplos de líderes e candidatos políticos que fizeram ou fazem parte do show business: Donald Trump, Arnold Schwarzenegger, Ronald Reagan, Peter Garret, Cicciolina e Joseph Estrada no mundo; Silvio Santos, Jean Willys, Romário, Tiririca, Marquito do Ratinho e last but not least, Igor Kannário, no cenário político brasileiro. 

         Mário Vargas Llosa em A Civilização do Espetáculo (2013) contribui para este argumento quando diz que 

Na civilização do espetáculo a política passou por uma banalização talvez tão pronunciada quanto a literatura, o cinema e as artes plásticas, o que significa que nela a publicidade e seus slogans, lugares-comuns, frivolidades, modas e manias, ocupam quase inteiramente a atividade antes dedicada a razões, programas, ideias e doutrinas. O político de nossos dias, se quiser conservar a popularidade, será obrigado a dar atenção primordial ao gesto e à forma, que importam mais que valores, convicções e princípios.

         Diante desta reflexão, faz-se importante salientar objetos comuns aos dois países: referências no alcance do mass media (sob forte influência da televisão), alto poder de entretimento popular, maior número de usuários de redes sociais. 

         No caso específico de uma destas redes, um dado particular: a capacidade de atualização de suas ações (textos, fotos e vídeos) e a possibilidade de acompanhar a atualização do outro. Distante dos olhos observadores essa noção pode, naturalmente, passar despercebida de maneira a subestimar a sua potência, contudo, quando Mark Zuckerberg – fundador da maior rede social do mundo, o Facebook – cria a tecnologia de update simultâneo e recíproco entre usuários ele talvez esteja debutando uma nova relação social entre pessoas mediadas, desta vez, por signos que vão além de imagens. 

         A plataforma digital, que também serve de ferramenta de protesto, denúncia e desabafo, tem por atributo e potente diferencial o mecanismo da partilha de informações e conteúdo através da atualização de postagens. O “diário de bordo” da vida e dos acontecimentos compartilhados em tempo real. Como num texto de teatro ou num filme, a vida real sendo o roteiro, a prática de comentar a vida no Facebook pauta os acontecimentos; evidencia e destaca na “trama”. 

         Para Hélène Kuntz, Pesquisadora do drama moderno e docente em Estudos Teatrais na Universidade de Paris – Sorbone, o comentário, enquanto mecanismo da dramaturgia, possui grau de importância equivalente ao coro da Tragédia pois “o verbo que torna o acontecimento uma coisa diferente do gesto bruto”. Para ela, o comentário moderno deixa de ser artifício marginal do fluxo das ações e passa a constituir lugar central de reflexão de contrários (opiniões e ações). Kerstin Hausbei, pesquisadora científica que integra o corpo docente da mesma instituição e Doutora em Epistemologias Teatrais, descreve o comentário como um dispositivo que “denota uma interrupção na cadeia dialética da ação dialogada que ele prepara, amalgama ou resume…”e “ comunica informações que escapam seja no aqui e agora do ato enunciativo, seja na esfera ‘ínter- humana’, trazendo à tona o estado interior do personagem”. 

A narrativa da vida real é, portanto, pautada a toda hora e a todo momento pela atitude do comentário. Melhor, as redes sociais interrompem, de maneira quase arbitrária, o fluxo intersubjetivo da vida em busca de uma voz que não encontra lugar mais no diálogo. A “sociedade-espetáculo”, herdeira da comunicação bilateral, abre espaço na retórica interpessoal, que carimbou as décadas passadas, em busca de um interlocutor numa fatia de tempo antes considerada improvável ou impossível.

         Ao observar, entre tantas características dessemelhantes, até a década de 90 as pessoas viviam a vida à medida que cumpriam as ações e os intentos que se desenvolviam ao longo de suas vidas. No advento das redes sociais a sociedade observa e analisa a si mesma. Reflete sobre as mesmas perspectivas das antigas e atuais ações. À reboque, o comportamento humano, os desejos, os sonhos, as experiências, as noções e os conceitos são postos no “mural” virtual a fim de que todos tomem parte. O ambiente antes reservado aos intelectuais hoje é assumido por qualquer um; por todos. 

Somos uma sociedade que comenta. Como agora.


[1] Em “Considerações Intempestivas”, Nietzsche declara que “Intempestiva é essa consideração porque procura compreender como um mal, um inconveniente e um defeito algo do qual a época justamente se orgulha.”

[2] Interessante observar a desfasagem que a própria linguagem enfrentava com a dificuldade dos em designar nomes para aqueles que antes foram intitulados como telespectadorleitor ou ouvinte.

[3] Filme de ficção realizado por Lilly e Lana Wachowski e protagonizado por Keanu Reeves, que descreve uma sociedade distópica a lidar com uma realidade paralela, criada e simulada por máquinas tecnologicamente conscientes. O filme foi escrito como uma trilogia e representa um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema. Em 2021, um quarto filme tenha sido lançado em 2021, contudo, o reconhecimento desta trilogia pode facilmente acusar a idade do autor.