ABEL

Uma antiga estação de trem; vista de frente, sob um corte longitudinal. Em toda a sua extensão se podem ver compridos bancos de madeira, uma entrada para o corredor de acesso aos banheiros e um guichê de compra de bilhetes à entrada da estação. Ao longo da parede, estende-se um balcão de um comércio. Na calçada, em frente ao trilhos, nasce um poste sustentando um sino de corda. Em cima da estação, um alto falante.

ou não.

Foco de luz forte atravessa o palco como faróis dianteiros de trem. Sons de pessoas andando, conversando. Sons de últimas chamadas, de trem partindo, de pessoas e de outros trens.
Abel e Caim com sacolas na mão.


Abel – Aqui não é o 6.

Caim – Quê?!

Abel – Aqui não é o 6. Deve ser em outro lugar. Aqui diz que é o 9.

Caim – Aqui é o 6, sim! O papel está de cabeça pra baixo. E na entrada tinha um cartaz dizendo que aqui só vai até o 7. Não existe o 9.

Abel – Ah! Pois..É verdade. Asno!

(tempo)

Caim – Ponha a sua sacola aqui. Venha. (procura lugar entre os assentos)

Abel – Pode deixar, não precisa.

Caim – O que é que tem aí?

Abel – Quase nada. Chega pra lá. E o trem?

Caim – Vai demorar.

Abel – É. Sempre demora.

Caim – Esse vai demorar muito. A gente chegou muito cedo. Vamos ficar mais pra cá, isso aqui quando encher vai ficar um inferno. A gente entra primeiro.

Abel – O lugar é marcado.

Caim – Eu odeio fila.

Abel – Você não precisa pegar a fila.

Caim – Eu sei. Mas é que ser o primeiro dá um sensação de liderança, ordem. Sei lá. Imagine, as pessoas vão chegando e nos encontram em pé, com as malas entre as pernas, sinalizando ali como início da fila.

Abel – Você viu o meu lenço?

Caim – O berço, o marco, o ponto zero daquela ordem estabelecida.

Abel – Você viu o meu lenço?

Caim – Daí a fila vai se formando nesse lugar que nós escolhemos que começasse. Nós seríamos como os anciãos da fila. As pessoas quando chegam numa fila muito grande sempre procuram saber com os olhos quem são os primeiros. E fazem suposições sobre desde quando esses “primeiros” chegaram ali, ou até mesmo sobre a que horas eles devem ter despertado de suas camas para poderem estar ali e serem de fato “os primeiros”. Tem muita coisa por trás de uma coisa só.

Abel – Merda! O meu lenço, você viu?

Caim – E se acontecesse algum acidente, sei lá. Sempre que isso acontece as pessoas sempre perguntam suas curiosidades para as pessoas que estavam há mais tempo ali. E aí se cada sucessor perguntasse ao seu antecessor sobre alguma coisa, no final só restariam nós, e a gente seria os donos da história! Você não tá ouvindo nada né?!

Abel – Achei! (tira uma maçã da sacola) Quer? Tô com fome (limpa a maçã no lenço).

Caim – Você vai comer assim?

Abel – Assim como?

Caim – Tá estranha. Feia.

Abel – Eu gosto de maçã de qualquer jeito.

Caim – Eu queria ser assim, pegar uma maçã com gosto pra comer. Não consigo. O pai também gosta de maçãs.

Abel – Eu sei. Eu e papai temos gostos parecidos.

Caim – Vocês são muito parecidos.

Abel – Ele repetiu mais de dez vezes para a gente mandar uma carta assim que a gente chegar.

Caim – Se a gente lembrar.

Abel – Eu vou lembrar. Tem três noites que eu não durmo só de pensar nessa viagem.

(tempo) 

Caim – Tem gente que sempre senta no canto.

Abel – Que gente?

Caim – Gente que tem medo de ser vista. Que quer observar o movimento sem fazer parte dele.

Abel – Eu sento no canto às vezes.

Caim – Eu sei.

(tempo)

Abel – E o meio? Quem senta no meio?

Caim – Gente que não quer decidir nada. Nem cedo demais, nem tarde demais. Fica ali, esperando ser levado pela corrente.

Abel – E você?

Caim – Eu fico perto da porta. Pra sair primeiro. Ou pra fugir se der errado.

Abel – Você sempre escolhe o lado que bate mais vento.

Caim – É. Gosto de sentir que posso ir embora a qualquer hora.

(tempo)

Abel – Eu acho que escolho pelo sol.

Caim – Você sempre escolhe pelo sol. Mesmo que ele esteja te cegando.

Abel – Porque ele me aquece.

Caim – E eu escolho a sombra.

(tempo)

Abel – Você não acha estranho que a gente sempre se senta assim?

Caim – Como?

Abel – Um ao lado do outro. Um no sol, outro na sombra.

Caim – Talvez por isso nenhum de nós nunca enxergue o outro direito.

(longa pausa. Abel olha para o céu, depois fecha os olhos.)

Abel – Eu queria ver o que você vê.

Caim – Eu queria parar de ver.

(tempo)

Caim – Alguém podia morrer.

Abel – O que?

Caim – Você sabia que uma maçã que despenca de uma altura de 160 metros de altura pode atingir uma velocidade de 144 quilômetros por hora? E que se por acaso essa maça atingisse alguém, o resultado será no mínimo um acidente fatal?

Abel – A última coisa que uma maçã iria me lembrar seria a morte.

Caim – A maçã já representou muita coisa nessa vida.

Abel – Pois se eu pudesse ficava horas comendo essa maçã, só para tentar registrar na minha memória o gosto “dessa” maçã. Dessa maçã. Essa especificamente. Não outra. Essa!

Caim – Dentro ela é a mesma de todas as outras. O que muda é o que você faz com ela.

Abel – Sinto a polpa da fruta passar pela minha boca, nos meus dentes, minha língua percebe o doce, depois o amargo, aí minha saliva se produz em maior quantidade, faz um bolo só e depois desce suavemente a garganta.

Caim – Não vale a pena tanto cuidado. Mais tarde você tem mais fome, come outra maçã e esquece dessa.

(tempo)

Abel – É. A gente deveria conseguir lembrar de tudo que a gente quer. Não existe coisa melhor do que a pessoa conseguir se lembrar de tudo que ela pode, ou de tudo que ela quer.

Caim – E não querer lembrar e não conseguir, como faz?

Abel – Como assim?

Caim – Nunca consigo me desfazer da cena do pai segurando aquela bandeira no dia da festa dos Rei-Santo!

Abel – Eu lembro! Pedimos a ele que levantasse a bandeira quando a água atingisse o nível do reservatório. Foi você ou eu quem gritou? Estávamos tão longe, não sei.

Caim – A água já estava transbordando, o pai levantando a bandeira com toda a força, parecia que queria sinalizar à algum soldado no deserto da China de tão forte e vibrante e…!

Abel – (gargalhada)

Caim – O exército ia fazendo a marcha da festa, quando o primeiro sargento avistou a bandeira balançando, achou que fosse um sinal de deslocamento do local da festa, e guiou todos aqueles duzentos homens de farda de gala e espingardas em direção à nossa casa..

Abel – (gargalhada)

Caim – O pai quando viu o exército em sua direção, de tão nervoso, começou a balançar cada vez mais forte e mais rápido e maior e com mais força..

Abel – (gargalhada) A cara da mãe. Quase desmaia.

Caim – (gargalhada) Apanhamos muito. Aliás eu apanhei muito.

Abel – (gargalhada) Os primeiros primeiro!

Caim – (começa a parar de rir)

Abel – (gargalhada)

Caim – (espera Abel acabar de rir)

Abel – (gargalhada)

Caim – Chega.

Abel – (risos)…quê?

Caim – Pronto, acabou!

Abel – O quê?

Caim – Não tem por que dar tanta risada. A piada já acabou.

Abel – Ái, desculpa…

(tempo)

Caim – A piada aconteceu, depois falamos, depois acabou e você ficou forçando, forçando..

Abel – Sei lá. É que eu não lembrava disso. Nossa, quanto tempo.

(As luzes da estação se dissolvem lenta e suavemente. Som de água corrente. Os irmãos se tornam crianças )

Abel (criança) – O rio vai me levar?

Caim (criança) – Só se você quiser.

Abel – Mas se eu quiser voltar?

Caim – Ah, rio não volta.

Abel – Por que não?

Caim – Porque se ele voltasse, ele virava poça.

Abel – Poça não é ruim.

Caim – Poça morre.

(tempo)

Abel – E se eu for com o rio?

Caim – Vai ficar longe.

Abel – Mas se eu gritar você me ouve?

Caim – O grito morre no meio.

Abel – E se eu me esconder dentro do rio?

Caim – Aí você some.

(Abel começa a tirar os sapatos)

Abel – Pai disse que o rio cura.

Caim – Pai também disse que o rio morde.

Abel – Ele morde quem não confia.

Caim – Eu confio.

Abel – Mentira.

Caim – Eu confio.

(Abel entra lentamente no rio )

Abel – É frio.

Caim – Então sai.

Abel – É bom.

Caim – Então volta.

Abel – Eu não posso voltar.

Caim – Você nem foi.

(Abel mergulha. Silêncio. Caim corre até a borda do rio.)

Caim – ABEL!

(Abel sai devagar, molhado. As roupas não mudaram, mas sua respiração é outra.

Abel – Eu sonhei que era o pai.

Caim – E o que ele fazia?

Abel – Me deixava ir.

(O som do rio começa a se misturar ao som da estação voltando. Lentamente, a luz e o espaço retornam; chegada de um novo trem sob a forma de sons e luzes, e vozes de orientação nos alto-falantes, aos sons de pessoas em aglomeração na estação.

Caim – Depois desse, mais 3.

Abel – ….

Caim – Ainda vai demorar.

Abel – Tudo bem.

(tempo)

Abel – Como tá aí?

Caim – O que?

Abel – Aí no rosto.

Caim – Ah, às vezes lateja um pouco. Mas está melhor…doendo menos.

Abel – Posso ver?

Caim – Não.

Abel – Acho que já tá na hora de trocar o curativo.

Caim – Não precisa.

Abel – Deixa eu dar uma olhada.

Caim – Não quero que toque.

Abel – Você vai continuar com isso?

Caim – Eu tenho direito de não querer. Ora..

Abel – Você sabe que precisa trocar, tem que ver como está. A mãe não está aqui e você não consegue fazer sozinho. Você tem um ferimento e ignora o risco de inflamar, pegar uma infecção, por bobagem..

Caim – Já falamos disso.

Abel – E eu já te prometi. não vai acontecer de novo.

Caim – Melhor não arriscar.

Abel – Daquela vez eu acabei agindo por impulso e você também acabou não fazendo nada então..

Caim – Eu não quero.

Abel – Deixa eu ver.

Caim – Não.

Abel – Por favor…

Caim – ….

Abel – Você precisa desconhecer o medo.

Num rompante, Caim abandona a conversa e, com rapidez se dirige à algum outro salão da estação – ele sai de cena e rapidamente volta. Emenda:

Caim – O bilhete tá com você?

Abel – Não..Ái, meu Deus! Tava…ah, aqui.

Caim – Me dá. Deixa comigo.

Abel – Ótimo. Melhor deixar os dois juntos mesmo.

(Tempo)

Abel – Você não parece muito ansioso pra chegar logo.

Caim – Não ?

Abel – … Não.

Caim – Acho que eu estou é com sede, mais do que qualquer outra coisa.

Abel – Eu trouxe água. Espera. Pouco antes de sair o pai me deu. Chamou por você mas parece que já estava pra depois do portão do jardim.

Caim – Ele não chamou por mim.

Abel – Chamou, eu ouvi.

Caim – Ele chamou você. Ele deu a água para você.

Abel – Talvez porque eu respondi logo.

Caim – Eu ouvi. Ele não chamou.

Abel – Eu estava lá.

Caim – Ele não perguntou nem da ferida.

Abel – Ele achava que já estava quase boa.

Caim – “Durante o sono o subconsciente toma a frente da verdade”.

(tempo)

Abel – Ele estava brincando.

Caim – Ele acha que eu mesmo me fiz isso! E pior, porque eu quis.

Abel – Quando bebe fala bobagens, você sabe mais do que nin…

Caim – Eu sei que ele sabe que eu bem sei.

Abel – Eu tinha acabado de raspar o molho de lenha quando nosso pai…

Caim – Ele não é meu pai!

(tempo)

Abel – Calma meu irmão. Tudo bem, vem aqui.

Caim – Ele preparou o cantil para você! É para você que ele roga todos os sacrifícios e todas as precauções! Os créditos, as oferendas, as súplicas…

Abel – É só uma água.

Caim – Você sabe que não é.

Abel – Nós ainda conversamos, e ele perguntou se as cabras tinham sido apartadas hoje. Eu não soube responder.

Caim – Eu esqueci.

Abel – Foi, ele disse.

Caim – Ele disse?

A conversa é interrompida pela chegada de um novo trem sob a forma de sons e luzes, e vozes de orientação nos alto-falantes. Sons de pessoas em aglomeração na estação. Os dois continuam a conversa com dificuldade até a partida do trem, sob os ruídos do caos estabelecido.

Abel – Quê ?

Caim – Eu perguntei se ele disse.

Abel – Ele disse.

Caim – Sim, isso eu já entendi. A pergunta é retórica.

Abel – Oi?

Caim – Ah, esquece.

Abel – Desculpa meu irmão, é que com esse barulho…

Caim – Eu quero saber o que foi que ele disse!

Abel – Não consigo ouvir uma palavra…

O trem parte, os ruídos cessam e, seguindo o ritmo da conversa, Caim responde no silêncio que resta.

Caim – Ah, vai a merda!!

(tempo)

Imóvel, Abel fixa os olhos em seu irmão. O silêncio profundo toma conta dos dois e de toda a estação. Constrangido, Caim nada diz. Abel, pega sua sacola e sai.

Caim – Aonde você vai ? O nosso trem pode chegar e eu vou ter que sair procurando você, vai ser um inferno. É melhor você não ir muito longe!

(Tempo)

Caim espera Abel voltar. A espera é maior do que ele imagina. Um certo incômodo se percebe no ar, em Caim.
Depois de algum tempo, Abel surge segurando um nacho de balões de ar coloridos.


(Tempo)

Caim – Oi. Desculpa, eu ia…

Abel – Tudo bem.

Caim – É esse trem, esse tempo, esse calor, essa agonia…

Caim – Que é isso?

Abel – Comprei pra você.

Caim – Pra mim?

Abel – Eu sei que você adora. Vejo como ficam seus olhos sempre que vamos ao parque.

Caim – Eu adoro.

Abel – Te amo.

Caim – Quando éramos crianças eu queria fazer coleção de balões.

Abel – Te amo.

Caim – Depois descobri que isso seria quase impossível, em si tratando de balões.

Abel – Te amo.

Caim – Você lembra uma vez que a gente…

Abel – Te amo.

Caim – …foi na vila com o pai pra buscar..

Abel – Te amo.

Caim – Pára.

Abel – Pra buscar as molas que ele comprou e aí tinha um circo na praça.

Caim – Pára!

Abel – Claro que eu lembro. 

(tempo)

Abel – E se eu ficar?

Caim – Ficar?

Abel – Aqui. Esperando os trens passarem, sem entrar em nenhum.

Caim – Não tem graça.

Abel – Às vezes acho que só entrei em trens que você escolheu.

Caim – Você é livre pra escolher.

Abel – Mas toda vez que eu escolhi, você disse que era errado.

Caim – Porque era.

Abel – Ou porque era só diferente?

(tempo)

Caim – Você não vai ficar.

Abel – Talvez eu já tenha ficado. Só estou esperando que você vá.

(Caim respira fundo, tenso.)

Caim – Você quer me punir?

Abel – Eu quero que você me veja.

Caim – Eu te vejo todo dia.

Abel – Não. Você vê o reflexo do que queria ser.

Caim – Eu não queria ser você.

Abel – Então por que me empurra pra frente de todos os trens que você não tem coragem de pegar?

Caim – Porque se eu não te empurrar, você nunca vai sair do lugar.

Abel – Ou talvez eu esteja onde devo estar.

(tempo)

Ao fundo, distante, o som de um novo trem

Abel – Lá vem vindo o próximo trem.

Caim – esse não têm parada aqui. Passa direto.

Abel – Acaba logo com isso.

Caim – O que ?

Abel – Eu sei.

Caim – …Não entedi

Abel – Eu sei porque estamos aqui.

Caim – Não estou entendendo.

Abel – Sim. você está.

Caim – Estamos indo na Santa Casa da cidade ver a ferida. Pra não infeccionar, o que falamos antes..

Abel – E eu também sei que só existe um bilhete no seu bolso.

(tempo)

Caim – Eu menti.

Abel – Eu sei. Existe uma ingenuidade na mentira que é indício de boa fé.

Caim – Você é bom.

Abel – Você também é.

Caim – Nós não podemos. É contra a natureza, contra Deus.

Abel – Nós somos a natureza. E somos parte dele também.

Caim – Ele não permitiria isso.

Abel – Somos desonestos com Deus. Às vezes não permitimos que ele possa pecar.

O som do trem vai ficando mais forte sugerindo que esteja mais perto.

Caim – Eu não queria isso.

Abel – Eu sei. Eu acredito.

Caim – Essa ferida…

Abel – Ela é sua.

Caim – Ela dói.

Abel – E vai continuar. Você se acostuma.

Caim – Por que tudo isso, assim?

Abel – Porque tudo sempre foi assim.

O som do trem fica mais forte; quase chegando na estação.

Caim – Às vezes parece que Deus some.

Abel – Acabado seu trabalho e assumida a forma de serpente, Deus se aconchegou nos pés da ciência. Descansou do cansaço de ser Deus. Fez bem. O Diabo nada mais é que o oćio de Deus a cada sete dias.

Caim – Amo você.

Abel – Faça.

Abel está de costas para o trilho. Caim empurra Abel para frente do trem. As luzes ofuscam e o som toma conta de todo o espaço. Os balões sobem lentamente para o céu.

FIM

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ABEL foi escrito em 2014. Em 2016, integrou a dramaturgia do espetáculo “Maçã – Um Acontecimento Cênico”, do COATO Coletivo Cênico, realizado em Salvador/BA, com encenação de Marcus Lobo.
Para minha imensa alegria. 

© Rafael Medrado, 2014–2025. Todos os direitos reservados.
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