Dois e meio aqui e acolá

Dois Nairas – moeda nigeriana

 “Two Naira Fifty Kobo” de Caetano Veloso é um brilhante testemunho da capacidade da música de transcender fronteiras e de tecer conexões entre mundos aparentemente distantes. Para compreender a profundidade dessa obra, é preciso mergulhar na complexa teia de relações históricas e culturais que entrelaçam o Brasil e a Nigéria. Estes dois países, separados pelo Atlântico, compartilham um passado que remonta aos tempos sombrios do tráfico transatlântico de escravizados, cujas marcas são indeléveis em ambas as nações. A cultura nigeriana, rica e diversa, foi transportada e enraizada em solo brasileiro, onde floresceu e deu origem a novas expressões de identidade. A canção de Caetano emerge desse caldeirão cultural, propondo um diálogo entre essas heranças e questionando as realidades contemporâneas que continuam a unir Brasil e Nigéria, agora sob a luz da globalização.

Este diálogo é uma extensão do espírito da Tropicália, movimento que Caetano Veloso ajudou a fundar e que, inspirado pela Antropofagia de Oswald de Andrade, buscava devorar as influências externas para transformá-las em algo novo e essencialmente brasileiro. O título da canção, “Two Naira Fifty Kobo”, com sua referência direta à moeda nigeriana, é mais do que um simples símbolo econômico; é um gesto antropofágico, uma apropriação e uma reinterpretação que ressignifica as relações entre esses dois mundos. Caetano, ao escolher essa referência, articula uma ponte simbólica que não apenas une culturas, mas também questiona os fluxos de valor e significado em um mundo cada vez mais interconectado.

A Nigéria, com sua rica tapeçaria de tradições culturais e religiosas, oferece a Caetano um espelho no qual ele reflete as complexidades da identidade brasileira. Assim como Mário de Andrade em “Macunaíma”, que costura as diversas culturas do Brasil para construir uma narrativa nacional, Caetano utiliza a moeda nigeriana como um símbolo que une realidades culturais e econômicas distintas. Essa fusão de elementos ressoa com as reflexões de Edward Said em “Orientalismo”, onde ele explora como as representações culturais moldam as percepções e relações entre diferentes regiões do mundo. “Two Naira Fifty Kobo” não apenas celebra a herança comum entre Brasil e Nigéria, mas também propõe uma crítica à forma como essas identidades são continuamente moldadas pelas forças da modernidade e da globalização.

A referência a Pelé na canção adiciona uma camada de significado que transcende a mera celebração de um ícone nacional. Pelé, admirado mundialmente e também na Nigéria, torna-se um símbolo da capacidade de figuras culturais transcenderem fronteiras e funcionarem como embaixadores de respeito e admiração mútua. Este ícone global reforça a noção de que a cultura pode ser uma força unificadora em um mundo fragmentado, uma ideia que se conecta com a obra de Jorge Amado em “Capitães da Areia”, onde personagens marginais se tornam símbolos de resistência e identidade em uma sociedade marcada pela desigualdade e pela exclusão.

A colaboração musical em “Two Naira Fifty Kobo” reflete uma sinergia entre diferentes tradições e vozes, reunindo músicos como o violoncelista Jaques Morelenbaum, o guitarrista Davi Moraes e renomados percussionistas. Esta fusão de talentos e influências evoca o movimento modernista brasileiro, que buscava integrar elementos locais e internacionais para criar algo inovador e original. Da mesma forma que Tarsila do Amaral combinou formas e cores para expressar uma nova visão do Brasil em suas pinturas, Caetano e seus colaboradores usam a música para mesclar tradições e criar uma obra que é simultaneamente universal e profundamente enraizada em suas origens culturais.

A canção também se insere nas discussões contemporâneas sobre globalização e as complexas interações culturais que ela provoca. Philip Bohlman, em “The Globalization of Music”, argumenta que a música é uma forma poderosa de explorar e negociar identidades culturais em um mundo cada vez mais interligado. “Two Naira Fifty Kobo” exemplifica essa dinâmica, funcionando como uma plataforma para refletir sobre as interações culturais e econômicas que caracterizam a globalização. De maneira similar às obras de Gabriel García Márquez em “Cem Anos de Solidão”, que combinam o local com o universal, a canção de Caetano consegue ser, ao mesmo tempo, uma expressão singular de identidade cultural e uma reflexão sobre questões globais.

Visualmente, o impacto simbólico de “Two Naira Fifty Kobo” pode ser comparado ao trabalho de artistas como Hélio Oticica, criador da obra “Os Parangolés” (é que inaugura e dá nome ao movimento da Tropicália), quando utiliza materiais e referências culturais diversas para criar obras que desafiam as fronteiras entre culturas e mídias. Assim como Oiticica cria imagens que reconstroem e reimaginam a realidade a partir de fragmentos culturais, Caetano usa sua música para transcender as divisões tradicionais entre culturas e criar uma obra que é ao mesmo tempo um comentário social e uma celebração da diversidade. A música, neste contexto, torna-se uma ferramenta poderosa de articulação cultural, oferecendo novas maneiras de pensar e entender as complexidades do mundo moderno.

Por fim, “Two Naira Fifty Kobo” não é apenas uma canção; é uma reflexão sobre as interseções entre identidade, globalização e o papel da arte em um mundo profundamente interconectado. Tal como o conceito de “desterritorialização” de Gilles Deleuze e Félix Guattari, a música sugere que as culturas não estão mais confinadas a lugares fixos, mas se movimentam e se reconfiguram constantemente através das interações globais. A poesia concreta de Caetano, com suas referências culturais e escolhas artísticas, propõe uma nova forma de pensar as identidades culturais em um mundo onde as fronteiras são cada vez mais permeáveis e as trocas culturais são inevitáveis. “Two Naira Fifty Kobo” se posiciona não apenas como uma obra musical, mas como uma intervenção poética e crítica no debate sobre as relações culturais no século XXI.

Ao tecer essa complexa tapeçaria musical e cultural, Caetano Veloso nos lembra das raízes profundas que ligam Brasil e Nigéria, como bem expressa o poeta baiano José Carlos Limeira em “Entre o Atlântico e o Leme”: “Sou parte desse rio profundo que leva e traz, sou da parte que ficou, mas carrego em mim o outro lado do mar”. Com essa imagem poética, Limeira captura a dualidade e a continuidade da identidade afro-brasileira, onde o Atlântico não é apenas uma barreira, mas uma ponte que conecta histórias, dores e resistências.

 “Two Naira Fifty Kobo” é como esse rio profundo. Nos convida a navegar por essas águas entrelaçadas, reconhecendo que o que somos hoje é uma fusão indissolúvel dessas correntes culturais que atravessam oceanos e séculos. 

E como nascem os rios, parecem quase nada quando brotam até encontrar o todo no mar do nosso coração.

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