Autonomia, aprisionamento e Byung Chul-Han

Há alguns anos, um amigo me ligou e, durante a conversa, me disse: “E aí que eu acho que tive burnout”. Por associação do termo, eu compreendi do que se tratava, mas não tinha noção da magnitude deste problema. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) realizou uma pesquisa que revelou um dado alarmante. O burnout, ou esgotamento profissional, tornou-se um problema global, afetando milhões de pessoas ao redor do mundo. Médicos, professores, profissionais de tecnologia e muitos outros estão sofrendo com níveis extremos de estresse, chegando a um estado de exaustão física e emocional. A situação tornou-se tão crítica que a OMS reconheceu oficialmente o burnout como um problema de saúde ocupacional, evidenciando a necessidade urgente de abordarmos essa questão.
Esse esgotamento não é um caso isolado; é um sintoma de uma sociedade que valoriza excessivamente a produtividade. Vivemos em uma era onde a busca incessante por resultados se transformou em uma nova forma de escravidão. Acreditamos ser livres e donos de nosso próprio destino, mas, na realidade, estamos nos explorando. Cada um de nós se tornou uma pequena fábrica, sendo simultaneamente patrão e funcionário, numa lógica implacável de autoexploração. Essa batalha interna, onde somos ao mesmo tempo mestres e escravos, revela a brutal eficiência dessa nova forma de controle.
Atualmente, a pressão não vem de fora, mas de dentro. A autoexploração, disfarçada de autonomia, não tem limites. Transformamos nossas vidas em projetos intermináveis, sempre buscando mais e mais desempenho. Isso leva ao esgotamento e à depressão, revelando a verdadeira face dessa falsa liberdade. Se pararmos para refletir sobre essa dinâmica, talvez possamos questionar os valores que nos guiam e buscar formas mais saudáveis de viver.
Era final de 2020 quando me esbarrei num podcast sobre filosofia ( e que amargo imensamente o facto de não lembrar o nome) cujo um dos seus episódios era sobre o filósofo Byung-Chul Han. Achei muito instigante o pensamento que tratava de dinámicas tão contemporâneas extremamente coerente com sensações e experiências muito próprias de mim. O tempo passou e depois de noites e vinhos de conversas extensas, após um professor trazer este tema em aula, dei a Luana “A Sociedade do Cansaço” como presente de aniversário. É surpreendente a capacidade de Han em absorver componentes tão sensíveis e paradigmáticos que a sociedade tecno-mercantizada, optimo-capitalizada produz e enfrenta. Em seu livro, Han oferece uma análise crítica dessa questão. Ele afirma que, na sociedade do desempenho, a pressão externa foi substituída pela autoexploração, que se disfarça de liberdade. Essa nova forma de exploração é mais eficiente e brutal porque emana de dentro de nós. A sensação de liberdade que acompanha a autoexploração nos engana, fazendo-nos acreditar que estamos no controle, quando, na verdade, estamos aprisionados por nossas próprias exigências e expectativas.
Transformar cada indivíduo em seu próprio chefe cria uma pressão interna constante. Em busca de auto-optimização e desempenho máximo, frequentemente sacrificamos nosso bem-estar emocional e físico. A promessa de sucesso e realização pessoal torna-se uma prisão, onde o fracasso e o esgotamento são inevitáveis. A autoexploração é ilimitada porque é autoimposta, levando-nos a um ciclo interminável de trabalho e produtividade que drena nossos recursos internos.
Nesse cenário frenético, o desempenho e a produtividade ressoam como as notas incessantes de um frevo, sempre rápidas e exigentes. Michel Foucault, em suas análises sobre poder e controle, nos mostrou como as sociedades disciplinares se valiam de proibições e repressões claras. Na sociedade do desempenho de Byung-Chul Han, porém, o controle se torna mais sutil, quase como um samba-canção melancólico. A pressão para sempre estar produzindo e se superando cria um estado de vigilância interna que nos leva a explorar nossas capacidades até o limite, como personagens presos em uma distopia orwelliana.
Esse constante estado de autoexigência leva ao cansaço crônico, algo que virou símbolo dos nossos tempos. Diferente das doenças infecciosas do passado, o cansaço crônico é um sintoma da sociedade moderna, como as personagens de Clarice Lispector, sempre buscando um sentido profundo e nunca encontrando paz. Zygmunt Bauman, em suas análises da modernidade líquida, explica como a fluidez e a incerteza da vida moderna contribuem para essa sensação de esgotamento contínuo. Estamos sempre em movimento, sem pausas adequadas para recarregar nossas energias, como andarilhos em busca de algo indefinido.
As consequências desse estilo de vida aparecem em novas formas de psicopatologias, como depressão, TDAH, transtorno bipolar e burnout. Karl Marx já falava sobre a alienação no trabalho, mas hoje vemos essa alienação se espalhando por todas as áreas da vida, como na música “Construção” de Chico Buarque, onde a repetição e a falta de significado levam à queda inevitável. A pressão constante para performar e a falta de sentido profundo nas nossas atividades diárias resultam em um mal-estar psicológico generalizado.
Ao comparar a sociedade disciplinar de Foucault, baseada na negatividade, com a sociedade do desempenho de Han, a mudança torna-se grande. Foucault descreveu uma sociedade onde o poder se manifestava através de proibições e repressões, criando limites claros. Na sociedade do desempenho, o poder é positivo, incentivando a autossuperação e o desempenho contínuo, como as figuras etéreas de um quadro de Salvador Dalí, sempre em movimento, sempre tentando alcançar algo inalcançável. Esse incentivo à positividade, que parece ótimo à primeira vista, na verdade, exacerba a autoexploração e o esgotamento.
Nós nos tornamos nossos próprios exploradores, buscando constantemente maximizar nossas capacidades. Karl Marx falou da exploração do trabalhador pelo capitalista, mas na sociedade do desempenho, a exploração é internalizada. Como personagens de “Dom Casmurro” de Machado de Assis, sempre duvidando de nós mesmos e nos pressionando incessantemente para atingir metas cada vez mais altas, o que leva a um ciclo vicioso de autoexigência e esgotamento.
Essa autoexploração gera uma falsa sensação de liberdade. Pensamos que somos livres para escolher nosso caminho e nosso ritmo, mas, na verdade, a coerção é internalizada. Michel Foucault já havia mostrado como o poder pode ser internalizado pelas pessoas, mas na sociedade do desempenho, essa coerção vem de dentro, criando uma prisão invisível onde somos nossos próprios guardiões, como em “Cálice” de Gil e Chico, onde o silêncio imposto é autoimposto.
O autocontrole e a vigilância constante do próprio desempenho substituíram a vigilância externa das sociedades disciplinares. Foucault descreveu como a vigilância era um meio de controle social, mas hoje, a necessidade de estar sempre monitorando nosso próprio desempenho se tornou o novo mecanismo de controle. Estamos sempre atentos a nós mesmos, avaliando constantemente nosso valor com base em nossa produtividade, como as figuras vigilantes em “Guernica” de Picasso, sempre em alerta.
A competição incessante é uma característica central da sociedade do desempenho. Zygmunt Bauman explicou como a modernidade líquida contribui para a sensação de competição contínua. Estamos sempre comparando nossos resultados com os dos outros, o que leva a um sentimento de inadequação e alienação. Essa competição constante esgota nossos recursos mentais e emocionais, contribuindo para o cansaço crônico e a depressão, como em “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa, onde a luta contínua leva ao cansaço da alma.
A sensação de atemporalidade e desorientação é uma consequência direta da falta de pausas naturais na nossa vida. Sem ritmos estáveis para nos guiar, perdemos a noção do tempo e nos sentimos constantemente desorientados, como personagens de Kafka, perdidas em suas próprias existências. Zygmunt Bauman descreve como a modernidade líquida cria essa sensação de fluidez e incerteza, que nos deixa sem um ponto de referência claro. A percepção do tempo é alterada. Estamos sempre correndo contra o tempo, tentando fazer mais em menos tempo, o que contribui para a sensação de cansaço e esgotamento, como nas pinturas de Escher, onde os caminhos se entrelaçam infinitamente.
A sociedade do desempenho, como descrita por Byung-Chul Han, cria um ambiente onde o cansaço crônico, as novas psicopatologias e a autoexploração são predominantes. Diante disto, é como se Foucault, Marx e Bauman desses as mãos para nos ajudar a entender as raízes e as consequências dessa realidade. Talvez seja hora de repensarmos nossa relação com o trabalho, o desempenho e o tempo para recuperar um senso de equilíbrio e bem-estar em nossas vidas.
À face desse cansaço, lembro das palavras de Drummond, que nos convidam a enfrentar o desconhecido com coragem e lucidez. Refletir sobre o futuro nos permite vislumbrar possibilidades de transformação e renovação, mesmo em meio às adversidades da sociedade do desempenho.
A vida segue seu curso, e é nossa responsabilidade encontrar um equilíbrio entre a busca incessante por realizações e a preservação de nossa saúde mental e espiritual. Assim como nos versos de Cecília Meireles, encontramos na simplicidade dos momentos uma fonte de serenidade e inspiração para enfrentar os desafios que estão por vir. Que o futuro nos reserve não apenas conquistas materiais, mas também um sentido profundo de harmonia e bem-estar, onde a verdadeira realização resida na capacidade de viver plenamente, em paz conosco mesmos e com o mundo ao nosso redor.
Ou não.
Eu adoro como esse texto aprofunda algo tão sério que nos atravessa a todos, mas dá um jeito de vir com respostas e visões tão poéticas. Dá esperança essa reflexão e a sensação de que podemos sim nos reinventar.
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