Hic Et Nunc

Como se não bastassem os livros que despertam o meu impulso incontrolável de tê-los, e que se unem a outros na lista dos que ainda não li, vou baixando um e-book aqui e outro ali, quando os assuntos tocam algum lugar de algum pensamento ou sentimento que esteja de mãos dadas comigo no momento.

Outro dia, lendo História e Utopia, do filósofo romeno Emil Cioran, fiquei espantado com a atualidade das suas reflexões, sobretudo do que diz respeito aos rumos da sociedade. 

A partir disto me pus a ponderar sobre inquietações que há algum tempo vêm remoendo a minha alma de ator, que reflete o tempo, e de artista, que concebe e fabrica outros novos.

Pois bem, muitos povos antigos, nas suas mitologias, imaginam o mundo inicial quase perfeito, em que os primeiros seres humanos viviam na mais perfeita felicidade. Gregos, egípcios, hindus, maias, astecas, celtas, mulçumanos, judeus e cristãos compartilham essa mesma ideia de plenitude originária que a humanidade acabou perdendo.

Desde a idade do ouro, passando pela idade da prata, do bronze, até chegar a idade do ferro, os autores antigos sempre relacionaram o caminho do desenvolvimento à perda da abundância eterna, atravessando pela chegadas das doenças e, enfim, ao advento do trabalho e à tragédia da escravidão. O avançar do tempo que nos abandonou a felicidade e nos entregou à imperfeição.

Nestes, o caminho que a humanidade percorre, ora de um jeito, ora de outro, duas dinâmicas surgem: uma, o mar seguro do pensamento conservador e outro, o agitado do pensamento revolucionário. O primeiro, para o qual o passado sempre será melhor que presente; e o segundo, para o qual o hoje nunca será melhor que o amanhã. 

Para Cioran, a segunda, embora seja mais poliana e talvez platónica, sem dúvidas é mais generosa. Se obter o que se deseja é, no fundo, a Felicidade, saber que ela está na frente, na luz do fim do túnel, é melhor do que viver lastimando o sentimento de que cheguei tarde demais para o banquete.

Entre um caminho e outro, vou me equilibrando entre o valor da tradição, em seu grau mais telúrico, e a necessidade do progresso. A urgência do progresso. Consciente, sustentável e o mais social possível. Fugindo de ilusões – tentando – , apesar das catástrofes atuais e de outras que sei que ainda estão por vir, me esforço para saborear o meu presente. Sobretudo o meu presente enquanto sei que ele existe. Tento fotografar na minha memória momentos especiais e experiências vividas para que as sensações passadas sejam de alguma forma ingredientes de um novo banquete. Baiano como sou, gosto de viver a mística das religiões que enaltecem a fé através da crença na possibilidade. Não à toa foi no Brasil que aportou o Rafael de Thomas More e fez o autor cunhar a Utopia para sempre na gramática da espécie humana.

Enquanto isso eu me contento com coisas simples: a bênção dos meus mais velhos, o olhar congelante da minha filha, o coração da minha eterna namorada, a mão forte dos amigos especiais, uma cerveja gelada e Gal Costa cantando Baby baixinho na caixa de som…

Outro dia, outras sensações correm e chegam pra invadir o meu corpo. Eu me entrego, inteiro, vivendo aqui e agora. 

* Imagem: iconografia de Quetzalcoatl – divindade da mitologia azteca representada pela serpente emplumada que simboliza a dualidade do pensamento e do conhecimento humano.

Deixe um Comentário