Um espetáculo que comenta

Tratar da contemporaneidade poderia certamente denotar um projeto pretensioso, alimentado pela ambição de ponderar sobre as dinâmicas de um tempo que ainda não terminou. O risco de suscitar uma historicidade presunçosa, visto que ainda não confirmada, pode acarretar no esfacelamento e até perda de autoridade sobre a reflexão do tema. Entretanto, Agamben isenta-nos deste risco quando afirma que a instância da contemporaneidade existe na “…singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias…” Na sequência deste pensamento, Agamben convoca as palavras de Nietzsche para alegar que a intempestividade é qualidade ao mesmo tempo necessária à e proveniente da atitude contemporânea, pois age como dispositivo capaz de relacionar o indivíduo em regimes de dissociação e desconexão com o seu próprio tempo.[1] Em outras palavras, para o autor, é através do intempestivo deslocamento analítico em relação ao seu tempo que o filósofo pode melhor compreendê-lo.

Ainda para o pensador italiano, o fenómeno da contemporaneidade “(…) se inscreve no presente marcando-o sobretudo como arcaico, e só quem percebe no mais moderno e recente os indícios e as signaturas do arcaico pode ser seu contemporâneo.”, e com isto anuncia a concepção de arcaico como sendo qualidade ligada à noção de “arché”, ou seja, da origem. Por fim, o pensador nos convida a atentar para a compreensão de que a esta origem não está relacionado lugar referente ao passado cronológico, mas que, por sua vez, a tal contemporaneidade estaria diretamente ligada ao devir histórico sem parar de funcionar sobre nele.

         Neste sentido, parece ser impossível evitar que reflexionemos sobre a quê ou a quem nos referimos quando assumimos a qualidade do per se contemporâneo nesta reflexão. 

         Lembro bem quando, ainda no curso de Comunicação, um professor de Mídias Digitais abriu a aula a dizer “Bem-vindos à era da comunicação bilateral!”. 

         A saudação que inaugurava o novo ciclo do tema na matéria fazia jus à sequência de plataformas digitais que pululavam nos laboratórios de tecnologia e linguagem de programação e prometiam revolucionar os meios de comunicação e o comportamento social. Ainda incipiente, o novo modelo de sistemas não somente aprimorava as vias de acesso entre o emissor-receptor de uma mensagem[2] como (enfim) proporcionavam a tão sonhada interatividade deste com os veículos de comunicação. Em outras palavras, a internet, sob forma de outra matriz (a tela do computador e dos recém-chegados smartphones), nem sonhava ainda com a profunda revolução no modelo de produção de conteúdo midiático que viria a provocar, e já celebrava um feito que por muitas décadas a sociedade aspirava: o contacto da resposta direta e imediata do interlocutor (ou destinatário) com o seu emissor (ou destinador).

         Neste dia, e nos demais que se seguiram ao tema, era evidente a atenção especial a qual o assunto exigia: sem dúvida, menos a capacidade revolucionária da internet em criar uma nova mídia (e consequentemente uma nova prática de mercado e consumo) e mais sobre a capacidade de abertura do canal de comunicação de um indivíduo para com o seu interlocutor  a partir da mensagem que este recebeu. Por vezes brindamos o advento de um modelo de comunicação, dentro do mass media, que permitia uma pronta resposta do receptor- emisso/consumidor, sem mediações e que já prometia capacidade de ampliação. 

         Qualquer um poderia “dizer” à empresa, ao jornal, ao programa, ao mundo o que pensava a respeito do que quisesse. Não somente reclamações, dúvidas, sugestões, mas agora um contacto efetivo, uma participação registrada e assistida ou qualquer outra intervenção. E claro, toda e qualquer relação comercial entrava no bojo dessa nova relação, inevitavelmente. 

         Basicamente era como se houvesse acabado o tempo em que se enviava cartinha para a produção do um programa “x” de rádio ou TV (impossível esquecer a imagem dos apresentadores mergulhados no mar de cartas a jogar pra cima), ou a era em que aos clientes bastavam os “serviços de atendimento ao consumidor”, quase sempre em sua maioria via telefone. Como se houvesse findada a era do conteúdo pensado unicamente por quem emite a mensagem. A “rede” já era revolucionária antes mesmo de ser. Para além de ampliar a democracia na comunicação com a chegada de novos canais e novas ofertas de conteúdo, a internet e especialmente as redes sociais abriam caminho na para a voz do outro. Um novo modelo que avançava na vanguarda da atitude que contemplava (com efeito!) a perspectiva da receção do leitor, do usuário, do telespectador e agora do internauta.

         Por certo que esta reflexão nasce de uma observação pessoal e única deste que escreve e discorre sobre o tema em questão. Contudo, se preciso fosse estabelecer um parâmetro de análise deste fenômeno a fim de, audaciosamente, ultrapassarmo-nos o impressionismo próprio da perspectiva subjetiva, seria oportuno trazer à colaboração outras disciplinas sofisticas e já bem estabelecidas que tangenciam o tema como o Teatro e a Sociologia. Mesmo de maneira tênue, traçar alguns paralelos contribuem para pensarmos melhor. Se considerarmo-nos o Teatro, sobretudo às questões ligadas à análise teatral, ou seja, o modelo de estudo dos códigos, signos e vetores teatrais, podemos traçar um paralelo entre o par emissor-receptor com a relação entre espetáculo e espectador. Entretanto, é preciso atentar para os riscos semiológicos que tal tarefa pode apresentar.

         Na mesma ordem das ideias, e a partir do que já pontuamos sobre os primeiros, Patrice Pavis (2015), ao tratar das discussões provenientes das novas formas do teatro contemporâneo e da necessidade de novas teorias que contemplem as instâncias produtoras e receptoras, advoga a favor de um pensamento que instaure novas estratégias de análise teatral. Para o teatrólogo, à contemporaneidade não cabe mais a polaridade objetividade-subjetividade – risco que ainda se corre no afã de contemplarmo-nos o olhar do espectador-usuário-receptor. Para o teórico, concentrar um pensamento unicamente na subjetividade é uma consideração inútil e ineficaz. 

Claro, é mesmo o sujeito que analisa e avalia, mas dizer qye a análise é subjetiva é não apenas uma banalidade, mas pressupõe que haveria uma objetividade sobre a qual se poderia finalmente entrar em acordo (Patrice Pavis).

De outro modo, a fim de evoluir com a análise da relação entre as redes sociais e os usuários, e adoptando-as aqui enquanto “espectáculo”, convém aplicar um pensamento que encare a recepção tanto quanto a produção. Convém atentar para as tensões que as duas instâncias produzem uma sobre a outra, e não incorrer na tentação ingênua de observar o fenómeno unicamente sob a perspectiva do “espectador”.

         Voltando às aulas de Comunicação, durante os anos seguintes ao curso assistimos a reformulação do mass media sob o cargo impreterível da internet e, consequentemente, a relação íntima em que a sociedade passou a estabelecer com este canal. Assistimos a “Matrix”[3] ser criada e construída, agora, pelas mãos do próprio indivíduo que a utiliza e a consome. Neste contexto, as redes sociais surgem como dispositivo quase perfeito para balizar esta relação. Quase. Elas apresentam o indivíduo ao mundo do espetáculo e a aproxima esse espetáculo à noção de vida deste indivíduo.

Guy Debord, em A sociedade do espetáculo (1967), livro-bíblia da extrema-ala do Maio de 68, farejava o que certamente seria umas das maiores singularidades da sociedade moderna: a simbiótica relação homem x espetáculo de existência. Para Debord, o espetáculo não correspondia à um conjunto de imagens, mas sobretudo à uma relação social entre pessoas, mediada por imagens e ressaltava que

“ O espetáculo apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz senão que “o que aparece é bom, o que é bom aparece”. A atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência…” (Guy Debord)

E ainda, 

(…)a realidade vivida é materialmente invadida pela contemplação do espetáculo, e retoma em si própria a ordem espetacular dando-lhe uma adesão positiva” …. “No mundo realmente reinvertido, o verdadeiro é um momento do falso…”

         O termo “sociedade do espetáculo” parecia estar quase sempre relacionada à Televisão até a chegada da internet e das redes sociais. Como se a valsa que embalava o espetáculo agora tivesse um novo partner. Não à toa, os dois países que possuem a maior quantidade de usuários do Facebook no mundo são aqueles cuja fortuna da sociedade do espetáculo mais perdurou: EUA e Brasil. 

         Muito particularmente, relaciono esse aspecto à muitas especificidades da condução política atual, e nesse sentido me atenho mais à perspectiva do pensamento político que a uma representação partidária específica – haja vista os incontáveis exemplos de líderes e candidatos políticos que fizeram ou fazem parte do show business: Donald Trump, Arnold Schwarzenegger, Ronald Reagan, Peter Garret, Cicciolina e Joseph Estrada no mundo; Silvio Santos, Jean Willys, Romário, Tiririca, Marquito do Ratinho e last but not least, Igor Kannário, no cenário político brasileiro. 

         Mário Vargas Llosa em A Civilização do Espetáculo (2013) contribui para este argumento quando diz que 

Na civilização do espetáculo a política passou por uma banalização talvez tão pronunciada quanto a literatura, o cinema e as artes plásticas, o que significa que nela a publicidade e seus slogans, lugares-comuns, frivolidades, modas e manias, ocupam quase inteiramente a atividade antes dedicada a razões, programas, ideias e doutrinas. O político de nossos dias, se quiser conservar a popularidade, será obrigado a dar atenção primordial ao gesto e à forma, que importam mais que valores, convicções e princípios.

         Diante desta reflexão, faz-se importante salientar objetos comuns aos dois países: referências no alcance do mass media (sob forte influência da televisão), alto poder de entretimento popular, maior número de usuários de redes sociais. 

         No caso específico de uma destas redes, um dado particular: a capacidade de atualização de suas ações (textos, fotos e vídeos) e a possibilidade de acompanhar a atualização do outro. Distante dos olhos observadores essa noção pode, naturalmente, passar despercebida de maneira a subestimar a sua potência, contudo, quando Mark Zuckerberg – fundador da maior rede social do mundo, o Facebook – cria a tecnologia de update simultâneo e recíproco entre usuários ele talvez esteja debutando uma nova relação social entre pessoas mediadas, desta vez, por signos que vão além de imagens. 

         A plataforma digital, que também serve de ferramenta de protesto, denúncia e desabafo, tem por atributo e potente diferencial o mecanismo da partilha de informações e conteúdo através da atualização de postagens. O “diário de bordo” da vida e dos acontecimentos compartilhados em tempo real. Como num texto de teatro ou num filme, a vida real sendo o roteiro, a prática de comentar a vida no Facebook pauta os acontecimentos; evidencia e destaca na “trama”. 

         Para Hélène Kuntz, Pesquisadora do drama moderno e docente em Estudos Teatrais na Universidade de Paris – Sorbone, o comentário, enquanto mecanismo da dramaturgia, possui grau de importância equivalente ao coro da Tragédia pois “o verbo que torna o acontecimento uma coisa diferente do gesto bruto”. Para ela, o comentário moderno deixa de ser artifício marginal do fluxo das ações e passa a constituir lugar central de reflexão de contrários (opiniões e ações). Kerstin Hausbei, pesquisadora científica que integra o corpo docente da mesma instituição e Doutora em Epistemologias Teatrais, descreve o comentário como um dispositivo que “denota uma interrupção na cadeia dialética da ação dialogada que ele prepara, amalgama ou resume…”e “ comunica informações que escapam seja no aqui e agora do ato enunciativo, seja na esfera ‘ínter- humana’, trazendo à tona o estado interior do personagem”. 

A narrativa da vida real é, portanto, pautada a toda hora e a todo momento pela atitude do comentário. Melhor, as redes sociais interrompem, de maneira quase arbitrária, o fluxo intersubjetivo da vida em busca de uma voz que não encontra lugar mais no diálogo. A “sociedade-espetáculo”, herdeira da comunicação bilateral, abre espaço na retórica interpessoal, que carimbou as décadas passadas, em busca de um interlocutor numa fatia de tempo antes considerada improvável ou impossível.

         Ao observar, entre tantas características dessemelhantes, até a década de 90 as pessoas viviam a vida à medida que cumpriam as ações e os intentos que se desenvolviam ao longo de suas vidas. No advento das redes sociais a sociedade observa e analisa a si mesma. Reflete sobre as mesmas perspectivas das antigas e atuais ações. À reboque, o comportamento humano, os desejos, os sonhos, as experiências, as noções e os conceitos são postos no “mural” virtual a fim de que todos tomem parte. O ambiente antes reservado aos intelectuais hoje é assumido por qualquer um; por todos. 

Somos uma sociedade que comenta. Como agora.


[1] Em “Considerações Intempestivas”, Nietzsche declara que “Intempestiva é essa consideração porque procura compreender como um mal, um inconveniente e um defeito algo do qual a época justamente se orgulha.”

[2] Interessante observar a desfasagem que a própria linguagem enfrentava com a dificuldade dos em designar nomes para aqueles que antes foram intitulados como telespectadorleitor ou ouvinte.

[3] Filme de ficção realizado por Lilly e Lana Wachowski e protagonizado por Keanu Reeves, que descreve uma sociedade distópica a lidar com uma realidade paralela, criada e simulada por máquinas tecnologicamente conscientes. O filme foi escrito como uma trilogia e representa um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema. Em 2021, um quarto filme tenha sido lançado em 2021, contudo, o reconhecimento desta trilogia pode facilmente acusar a idade do autor.

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